3. REPORTAGENS abril 2013

1. CAPA  POR QUE TUDO CUSTA TO CARO NO BRASIL
2. COMPORTAMENTO  D PARA VIVER DE GRAA?
3. HISTRIA  O VERDADEIRO VELHO OESTE
4. IDIAS  POR DENTRO DO TEC
5. CINCIA  COMO FAZER UMA BOMBA ATMICA
6. RELIGIO  OS JESUTAS CONTRA-ATACAM

1. CAPA  POR QUE TUDO CUSTA TO CARO NO BRASIL
No, a culpa no  s dos impostos.  da infraestrutura precria de um pas to gigante quanto sua burocracia, uma nao que enriqueceu e no investiu em seu prprio crescimento. A culpa  do governo,  da indstria. E  nossa tambm.
EDIO E REPORTAGEM / Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen
DESIGN / Jorge Oliveira ILUSTRAO/ Bruno Oliveira Santos FOTO/ Arthuzzi

Perguntaram ao ganhador do Big Brother: 
      E a? O que voc vai fazer com o seu milho? 
      Vou comprar um apartamento em Braslia. 
      E com o resto? 
      O resto eu financio pela Caixa! 
     Essa piada j rola h um tempo em Braslia. Mas serve em qualquer lugar. De 2008 para c, s em So Paulo, os imveis subiram 163%. R$ 1 milho  o novo R$ 380 mil no Banco Imobilirio da vida real. O metro quadrado na capital paulista e no Rio j est entre os mais altos do mundo. Nos bairros ricos, ento, haja Big Brother: um apartamento de 100 m2 no Leblon custa a mesma coisa que um em Paris  RS 2 milhes. E j comeam a aparecer nos classificados coberturas de R$ 20, R$ 30 milhes. 
     Aqui embaixo, as leis no so diferentes. O Big Mac brasileiro  o quinto mais caro do mundo. Enquanto os moradores de Tquio pagam R$ 7 por ele, ns gastamos R$ 11,25  e olha que o Japo no  exatamente um pas conhecido pelo baixo custo de vida. Em Paris, que tambm no est na lista das cidades mais baratas da Terra, voc paga R$ 25 por uma coxa de pato. Isso no Chartier, um restaurante badalado do bairro mais fofo da cidade, Montmartre. Na nem to fofa assim So Paulo, o mesmo pedao de pato pode custar at R$ 70  e no consta que o dono do restaurante pague ao pato para que ele venha voando de Montmartre at a Vila Madalena. Com o frango  diferente: ele vai voando, sim. Boiando, na verdade  congelado dentro de um cargueiro, mas vai. Daqui at a Europa. O Brasil tem de frango quase o que a China tem de gente (1,26 bilho, segundo o IBGE).  o maior exportador do mundo. Parte desse efetivo galinceo vai para a Alemanha aps a morte. E alguns desses penados possivelmente acabam no Grlitzer Park, onde os berlinenses fazem fila para comprar pratinhos de halbHhnchen (meio frango). Custa R$ 9,50 l, com batata frita. No Brasil  quase R$ 20. Sem batata frita. 
     E no  s frango que a gente manda ao mar e que  vendido mais barato l fora. Mandamos carros. O Gol sai da fbrica em So Bernardo do Campo (SP) e desliza de cargueiro at o Mxico. O modelo bsico l  o 1.6 quatro portas, com ar-condicionado. Aqui, um Gol assim sai por R$ 37 mil. L, Dona Florinda e Professor Girafales podem pagar R$ 23 mil pelo mesmo "Nuevo Gol". Se o Quico fizer birra e quiser um carro mais vistoso, d at d para pensar num Camaro. L custa R$ 65 mil. Aqui, R$ 190 mil. Com a diferena, d para pagar um ano e quatro meses de dirias no Las Brisas Acapulco, um dos melhores hotis do balnerio mexicano. 
     Agora, quando o carro  caro mesmo, a diferena fica pica. Sigam-me os bons: o conversvel mais invocado da histria deve chegar ao Brasil em 2013.  o Lamborghini Aventador LP 700-4 Roadster. Aqui, ele vai ter uma etiqueta de preo to grande quanto o nome: R$ 3 milhes. E pelo menos trs brasileiros j reservaram os deles. Mas ento, Eike: se voc deixar para gastar esses R$ 3 milhes nos Estados Unidos, pode comprar um helicptero, um apartamento em Manhattan e mais o mesmo Lamborghini! Olha s. E um apartamento nos Jardins ento,  venda por R$ 30 milhes? Cinco sutes, oito vagas na garagem... Uau. Mas com essa grana voc compra um palcio na Frana (R$ 14,4 mi), uma vila em Portugal (R$ 8,6 mi), uma fazenda na Itlia (R$ 3,4 mi), uma cobertura no litoral da Espanha (R$ 2,2 mi) e mais um chal nos Alpes (R$ 1,4 mi). E ainda sobra um troco para o lanche. Se for um Big Mac, melhor ainda. Ele  mais barato em todos esses pases. 
     E  isso que os brasileiros vm fazendo, por sinal: deixar para comprar em outros pases. Voc sabe: iPad, enxoval de beb, maquiagem... Todo mundo volta carregado. O portugus das vendedoras de Miami j est melhor que o nosso. E tinha de estar mesmo: o gasto de brasileiros no exterior  o que mais cresce no pas. O PIB travou, mas a quantidade de dlares que gastamos l fora sobe que  uma beleza. Eram US$ 10,9 bilhes em 2009. Hoje so US$ 22 bi. D um crescimento de 19,5% ao ano. O do PIB, no mesmo perodo, subiu s 2,7% por ano. Ou seja: estamos consumindo o PIB dos outros, j que o nosso est caro demais. Por que est caro demais? Porque o Brasil ganhou na Mega-Sena. E est gastando tudo no bar.
     
A MULTIPLICAO DO CRDITO
     Nossa Mega-Sena veio nos primeiros anos deste sculo. Entre 2003 e 2007, os cinco anos antes da crise de 2008, o Produto Interno Bruto do planeta cresceu em mdia 5% ao ano  com a China chegando a picos de 11%, 12%, depois 14%. "A economia mundial vem passando por uma fase de exuberncia maior ainda que nos golden years da dcada de 1960 ", escreveu na poca o economista Fbio Giambiagi, do BNDES. 
     Bom, Produto Interno Bruto  um dado medido em dinheiro. Mas PIB no  dinheiro. PIB so coisas concretas. S o crescimento do PIB chins significou a construo de 1.500 prdios de mais de 30 andares por ano no pas. Xangai, que no tinha metr at 1995, passou a ter 454 quilmetros de linhas  contra 402 km em Londres, 337 km em Nova York e 74 km em So Paulo. Era um mundo novo nascendo do zero. 
     E o Brasil surfou nesse trem vendendo matria-prima para o resto do mundo. Principalmente minrio de ferro, petrleo e comida  commodities, como dizem os economistas. Entre o comeo dos anos 90 e 2002, exportvamos em mdia USS 54 bilhes por ano. De 2003 at 2011, a mdia triplicou para US$ 155 bilhes. 
     No por coincidncia, foi exatamente nesse perodo que 40 milhes de brasileiros saram da pobreza. Entraram para a classe C. Outros 9 milhes saram da C e subiram para a A e a B. Tudo porque o dinheiro das exportaes azeitou os motores da nossa economia. Funciona assim; imagine um sujeito que ganhou milhes com minrio de ferro, tipo um diretor da Vale. Ele se aposenta, pega o que juntou nos anos dourados e abre uma rede de pizzarias. O gerente da pizzaria resolve comprar um carro. O dono da concessionria compra uma SUPER... e ns queimamos as calorias nadando na enorme piscina de dinheiro que montamos na redao. So as engrenagens da economia girando. S isso j comea a explicar o boom dos imveis. Agora o gerente da pizzaria, o dono da concessionria e a equipe da SUPER no dependiam mais do Ba da Felicidade para tentar o sonho da casa prpria. Sentiram que dava e foram atrs de apartamento. Mas prdios novos no do em rvore e, como dizia o mafioso e investidor do mercado imobilirio Tony Soprano, "Deus no est abrindo terrenos novos por a". Emilio Haddad, um engenheiro especialista em imveis e professor da USP, concorda com Tony: "A oferta de terrenos urbanos  escassa no Brasil". 
     A escassez de oferta bateu de frente com a fome dos compradores. O preo dos imveis, que estava mais ou menos estagnado havia dez anos, comeou a subir. E o que aconteceu, ento? Ficou mais fcil comprar apartamento! No mais difcil, como a razo pura mandaria.  que a economia tem uma lgica peculiar: os bancos comeam a financiar mais quando o mercado imobilirio esquenta. O banqueiro se sente protegido. Se o tomador do financiamento der calote, o banco vende o apartamento depois por um valor bem maior do que pagou. Imagine a situao: um cara financiou um apartamento de R$ 380 mil em So Paulo, em 2008, e perdeu o emprego. No conseguiu mais pagar as parcelas do financiamento. O que acontece com o banco que pagou os RS 380 mil pelo apartamento l atrs? Ele vai e vende por RS 1 milho, u. Lindo.  dinheiro certo, na alegria ou na tristeza. Nisso os gerentes comearam a receber qualquer um de braos abertos. Nem parecia banco... 
     Era o milagre da multiplicao do crdito. Se em 2007 os financiamentos habitacionais representaram 1,5% do PIB, em 2012 j eram 5,5%. H dez anos existiam RS 4 bilhes voando pelo sistema financeiro na forma de crdito imobilirio. Hoje so RS 100 bilhes. E se a demanda j estava quente, com o estouro da boiada do crdito ela pegou fogo. Foi a disparada do terrao gourmet. Rio, So Paulo, Braslia, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte... Em todas essas capitais o metro quadrado subiu mais que a inflao de 2008 para c, que foi de 25%. No Rio, foram 200%, j que Deus no tem mais para onde aumentar o Leblon. 
     De quebra, o preo do cimento, do ao e de tudo o mais que voc precisa para levantar um prdio tambm subiu. Quem reformou a casa recentemente sentiu o peso da argamassa de ouro. A unidade monetria dos mestres de obra passou a ser o "dois pau". "Quanto sai para arrumar essa parede aqui?". "Dois pau". "E o encanamento?". "Ah, dois pau''. 
     Como dissemos, esse fenmeno comea a explicar o aumento dos imveis. Mas no termina. Tem outra razo para os aumentos, menos glamourosa que a piscina de dinheiro das exportaes: a nossa lerdeza. 

O CUSTO BRASIL 
     D para entender nossa lentido sem sair do mundo dos imveis. O mtodo mais comum de construo por aqui continua sendo basicamente o mesmo da Mesopotmia de 8 mil a.C.: a alvenaria  levantar paredes tijolo por tijolo (ou bloco de concreto por bloco de concreto), unindo tudo com argamassa. L fora, usam mais material pr-fabricado: uma usina vai e monta placas de concreto (ou de cermica). As placas saem da usina, vo para a construo, e os operrios montam o prdio como se fosse um Lego gigante. Vo encaixando tudo. "Se aqui um empreendimento com duas torres de 35 metros exige at 1.500 trabalhadores e leva 42 meses para ficar pronto, os americanos erguem uma obra dessa magnitude em 30 meses e com metade dos funcionrios", disse Alessandro Vendrossi, diretor da Brookfield, uma construtora, em uma entrevista recente  revista EXAME. Na China, usando ainda mais material pr-moldado e uma logstica do demnio, j conseguem levantar prdios de 30 andares em 15 dias. Se fosse assim no Brasil, a oferta de prdios novos acompanharia qualquer demanda. E o preo dos imveis no teria explodido. Pelo menos no tanto. 
     Por que no tem nada assim no Brasil, ento? Porque os empresrios e o governo gastam pouco para melhorar seus meios de produo, no investem o que poderiam em mquinas mais modernas e novas fbricas (como usinas de placas de concreto). Na China, esse tipo de investimento corresponde a 48% do PIB. Metade do que o pas produz tem em vista justamente produzir mais. Um tero do ao que a China fabricou na era dourada, boa parte usando o nosso minrio como matria-prima, foi para a construo de novas usinas de ao. Aqui, pegaram o dinheiro do minrio e foram comprar Land Rovers e reformar coberturas na Lagoa. 
     Investir em mais meios de produo  timo porque baixa os custos l na frente.  um PIB que gera mais PIB. A argamassa no fica valendo ouro porque o pas passa a produzir mais e melhor argamassa (ou placas pr-fabricadas). E a no tem como surgir a cultura do "dois pau". Os preos no partem para a irracionalidade. No d. 
     O nome tcnico que os economistas do para esse tipo de gasto , no por acaso, "investimento". E a regra  bvia: quanto menos desenvolvido for um pas, mais ele precisa gastar em investimento. Os emergentes colocam em mdia 31% de seus PIBs nisso. A Monglia, novo quintal de commodities da China, 51%. Ns, 19%.  o mesmo tanto que o Egito  um pas que s gastou de verdade com investimento quando fez as pirmides. 
     Quem pode se dar ao luxo de gastar pouco com investimento so naes que j se desenvolveram h tempos: Sua, Blgica, Finlndia... Esses tambm esto no clube dos 19%, mas j so bem industrializados. Ainda no  o nosso caso. E, se continuarmos investindo pouco, nunca ser. 
     A falta de investimento  a explicao por trs do "custo Brasil"  o fato de que produzir aqui  mais caro e penoso do que em pases desenvolvidos. Ferrovia, por exemplo. Ferrovia  um caso clssico de investimento: custa caro, mas d retorno de longo prazo, tornando fretes mais baratos. O Brasil tem 29,8 mil quilmetros de linhas frreas. Dez mil foram construdos por dom Pedro 2. E hoje nossas linhas no alcanam os lugares que mais precisam delas, como as regies produtoras de soja no Mato Grosso. Nisso a soja percorre boa parte do caminho at os portos de caminho mesmo. 
     Resultado: enquanto o custo de transporte por tonelada de soja  de RS 35 nos EUA, aqui  de RS 160. J a China, sempre ela, adicionou mais de meio Brasil em trilhos s entre 2007 e 2011: 19 mil quilmetros. E hoje eles tm 98 mil. Ficam atrs s dos EUA e da Rssia, outros dois pases continentais, que tambm precisam de ferrovias para respirar (so 226 mil nos EUA e 128 mil na Rssia). Lembra de algum outro pas continental no mundo? Canad: 46 mil. Austrlia: 38 mil. E a Argentina tem 36 mil, 7 mil a mais que o Brasil. Pois . 
     Sem uma malha ferroviria decente, o custo do transporte vai l para cima. E acaba embutido nos preos de tudo. Levar um carro da fbrica em So Paulo para uma concessionria em Salvador (a 1.900 km) custa quatro vezes mais do que o frete entre Xangai e Pequim (1.200 km). 
     Na era dourada dos anos 00, a China levantava duas termeltricas novas por semana. O Brasil, abenoado por Deus e hidreltrico por natureza, no se preocupou tanto com a parte da energia. E agora estamos pagando a conta via custo Brasil. Produzir uma/tonelada de cimento, por exemplo, custa por volta de R$ 30 em eletricidade. Parece pouco, mas o consumo de cimento em 2011 foi de 65 milhes de toneladas. D R$ 1,9 bilho de conta de luz. Nos EUA, a energia industrial  55% mais barata do que a nossa era at 2012; Ou seja; produzir a mesma quantidade de cimento l estava saindo por R$ 1 bilho a menos s na eletricidade. Metade do valor. E tome argamassa de ouro... Por que to caro? Porque as companhias de energia tinham contratos de pai para filho  s vezes com reajustes anuais pelo IGPM, o ndice de inflao invariavelmente mais gordo que o IPCA. Ser acionista de uma companhia de energia, at o ano passado, era dormir em bero esplndido: muito lucro e pouca dor de cabea com esse negcio de "investimento". Tanto havia gordura para queimar a que o governo renegociou seus contratos com as companhias de energia. A tarifa residencial caiu 18% e a industrial, 32%, segundo a Aneel. E o mundo no acabou, nem o Brasil apagou. Mas nossa indstria ainda paga 33% a mais pela energia do que a dos EUA. Ainda temos muito a investir a. 
     S que fica difcil investir quando a gente se depara com outro insumo que custa muito dinheiro: o prprio dinheiro. Pois . O emprstimo para capital de giro (que os empresrios usam para tocar despesas do dia a dia, como folha de pagamento) sai por uma taxa mdia de 19% ao ano. No Chile, so 5,8%. Na China, 3,7%. Na Alemanha, 2,5%. Nos EUA, 1,1%. D para ir at o final dessa matria s listando os pases em que o dinheiro  mais barato. Cortesia do nosso spread bancrio. Spread  o seguinte: banco tambm toma dinheiro emprestado. s vezes, de voc mesmo. Quando voc pe dinheiro em um CDB, por exemplo, est emprestando para ele. A diferena entre os juros que o banco paga para voc e o que ele cobra quando empresta (na forma de crdito para capital de giro, por exemplo)  o spread. E o nosso spread  o maior do mundo. Vcio de um sistema bancrio acostumado a taxas pornogrficas de juros. Seu carto de crdito est de prova. E os preos altos tambm: a Fiesp diz que pelo menos 7,5% do preo final de qualquer produto  culpa dos juros que os bancos cobram. E que a indstria gasta RS 156 bilhes anuais s para pagar esses juros.  o mesmo tanto que o BNDES empresta por ano para fomentar o ''desenvolvimento econmico e social" que faz parte de sua sigla. A uma coisa acaba anulando a outra. Nossos juros altos, nossa energia cara e nossa logstica do sculo 19 so grandes freios para o PIB. E aceleradores dos preos altos. 
     Mas ainda tem o turbo dos preos: nossos amigos impostos, que esto sempre com a gente. 

O MANICMIO TRIBUTRIO 
     Em 1821, dom Pedro, recm-nomeado prncipe regente, viu-se em uma enrascada. O Brasil estava quebrado. Para tentar reverter o quadro, uma de suas primeiras medidas foi abolir o imposto do sal e da navegao de cabotagem, que encareciam a produo de charque, um dos principais itens da economia de ento. , o excesso de impostos j era um entrave. Brasileiro, voc sabe, paga muito imposto. Somos s o 75 pas em PIB por habitante. Mas temos a 14 carga tributria mais alta: 36,2% em relao ao PIB. 
     Mas o buraco  mais embaixo. Se fosse uma pessoa, nossa carga tributria seria aquele namorado problemtico, cheio de picuinhas e histrias mal contadas. Imposto  uma coisa to complicada no Brasil que as empresas gastam 108 dias por ano s para preparar, registrar e pagar tributos. Estamos em 130 no ranking de burocracia do Banco Mundial (que  de trs para a frente: quanto mais embaixo na lista, mais burocrtico  o pas). Se sua Praga fosse aqui, Franz Kafka teria muita inspirao para escrever a respeito (a Repblica Tcheca manda um salve do 65 lugar, alis). A mdia nos pases desenvolvidos  de uma semana para tratar da papelada. "J ouvi donos de multinacionais dizerem que as equipes da rea de tributao so dez vezes maiores aqui que no exterior", diz Fernando Pimentel, diretor da Associao Brasileira da Indstria Txtil. " um manicmio tributrio". 
     As empresas gastam um tero do ano para lidar com impostos. So 88 tributos federais, estaduais e municipais, que vo da contribuio para a aposentadoria  taxa de lixo. Alm disso, as regras mudam constantemente: 46 normas tributrias so editadas por dia. A cada 26 minutos, a Receita Federal cria uma nova regra. 
     Olhe seu sapato. Se for Made in China, ele custava cerca de US$ 5 quando desembarcou no Porto de Santos. A partir da, o preo sobe. Primeiro,  o Imposto de Importao, um tributo federal que, no sapato,  de 35%. Depois, o Imposto sobre Circulao de Mercadorias e Servios (ICMS), que  recolhido pelos Estados (e, em cada um deles, h uma tarifa diferente). Os famosos PIS e Cofins tambm aparecem nessa operao. O Programa de Integrao Social (PIS) foi criado para alimentar um fundo de pagamento de seguro-desemprego. J a Contribuio para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) serve para investimentos em sade, previdncia e assistncia social. No caso do sapato, eles somam 9,1%). Tambm h uma taxa de Cofins exclusiva para importados e, no exemplo chins, uma sobretaxa de USS 13,85 por par desembarcado no Brasil.  uma medida antidumping do governo. Ou seja, ela serve para evitar que o preo baixssimo do calcado chins prejudique a indstria caladista brasileira  e tambm d uma folga para que essa indstria no seja obrigada a baixar suas margens de lucro por causa da concorrncia. 
     Ok. Agora, se o seu sapato foi fabricado aqui, a histria muda. So 12% de ICMS e mais 9,25% de PIS e Cofins. Mais outros 3,4% de Imposto de Renda e de Contribuio Social Sobre o Lucro Lquido (CSLL), um imposto que tambm foi criado para ser revertido em sade, previdncia e assistncia social. Depois so 0,04% de IOF, o Imposto Sobre Operaes Financeiras. E ainda tem os gastos com os funcionrios: Fundo de Garantia por Tempo de Servio (FGTS), que  aquela poupana que o governo faz em seu nome, caso voc seja demitido sem justa causa. E a taxa do INSS, o Instituto Nacional da Seguridade Social, que um dia pagar sua minguada aposentadoria. Somados, do 6,5%. Assim, o calado sai da linha de produo a R$ 59, segundo a gerente de custos de uma fbrica de grande porte que preferiu no ser citada. Cansou? Pois isso  s na indstria. Sobre o varejo, incidem ICMS, PIS e Cofins, alm de um outro, o ISS, sobre servios, cobrado em cada municpio (varia entre 2% e 5%). 
     Calma que piora. Se voc simplesmente somar os percentuais de impostos, a conta no fecha.  que h tributos que incidem uns sobre os outros. E vo depender se a empresa paga imposto sobre o lucro presumido ou real, por exemplo. E a os preos ficam como ficam. No ovo de Pscoa, 38,5% do valor cobrado so impostos. E, no bacalhau importado, gordurosos 43,7%. Por isso que cada vez mais gente vai s compras no exterior: um Samsung Galaxy SIII, em Miami, sai por R$ 650. Em So Paulo, o celular no sai por menos de R$ 2.048. Pelo menos em parte, d para culpar os impostos: l so s 7%, enquanto aqui so quase 40%. Para desatar o n, economistas, polticos e empresrios clamam pela reforma tributria. A maioria dos especialistas ouvidos pela SUPER defende que o imposto migre do consumo para o patrimnio, ou seja, que pese sobre o lucro e sobre a renda e no sobre trabalho, produo e consumo. Isso faz muita diferena. "Hoje, a maior parte do que pagamos de imposto  sobre o faturamento [tudo o que entra em caixa], no sobre o lucro", diz o presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributrio (IBPT), Joo Eloi Olenike. Ou seja; os comerciantes tm de pagar impostos gordos mesmo quando tm prejuzo. Isso estimula bastante a livre-iniciativa  s que ao contrrio. Enquanto a reforma no sai, alguns setores da economia fazem acordos pontuais. No ano passado, por exemplo, a indstria automobilstica foi beneficiada pela reduo do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Resultado: a venda de veculos subiu 4,6% em relao a 2011  e o IPI virou garoto-propaganda dos comerciais de carro. 
     Mas no. Os impostos no explicam tudo sozinhos. Nem o custo Brasil. Outro fator tambm entra na conta: o "lucro Brasil". 

O LUCRO BRASIL 
     No Mxico, o Honda City  um carro importado. No do Japo, mas de Sumar, no interior de So Paulo. O City sai da fbrica da Honda, na regio de Campinas, embarca para o Mxico, e  vendido l por R$ 33.500. Aqui, o mesmo modelo, da mesma fbrica, custa R$ 53.600. 
     O custo Brasil no explica a diferena, j que o carro  feito aqui, sob o corredor polons de penria que  produzir aqui. Tem os impostos. No Brasil, 36% do preo final de um carro  imposto. Significa que, despido de taxas, o City sairia por R$ 34 mil. Ok. Mas o Mxico no  o Jardim do den tributrio. O imposto l equivale a 18% do preo final de um carro. Ento o preo mexicano do City sem os tributos de l seria de R$ 27.500. Ou seja: mesmo tirando os impostos da jogada, o City brasileiro ainda custa R$ 6.500 a mais que o seu irmo mexicano. 
     Com o Gol acontece a mesma coisa. No Mxico, ele  um carro importado do Brasil, com a diferena que o modelo bsico l  bem superior ao nosso, que  1.0, duas portas e sem ar. Mas vamos comparar s os modelos com a "configurao mexicana". Descontando os impostos de cada lado, como fizemos com o City, o Gol brasileiro vendido no Mxico ainda  R$ 4.500 mais barato que o nosso. Concluso: a margem de lucro aqui  maior do que l. E em tese deveria ser menor: o Brasil  o quarto maior mercado consumidor de carros no mundo, atrs apenas de China, EUA e Japo.  mais fcil ganhar na escala (vendendo mais a um preo menor) do que no Mxico. Nosso mercado d quatro vezes o deles. Mas no. Aqui  mais caro, mesmo tirando os impostos e o custo Brasil da jogada. 
     A Associao Nacional dos Produtores de Veculos (Anfavea) se defende. Diz que no  possvel falar em preos fora da realidade do mercado em um ambiente competitivo como o brasileiro, onde h mais de mil modelos  venda, entre nacionais e importados. 
     De fato. Talvez o problema esteja mesmo na "realidade do mercado". Nessa realidade, pagar R$ 100 mil em carro passou a ser uma despesa aceitvel, mesmo que isso comprometa uma fatia gorda do salrio. A verdade  que preos altos tm uma fora magntica no Pas. Gostamos de gastar, de ostentar.  status. A ponto de lojas de preos acessveis na Europa, como a espanhola Zara e a inglesa Topshop, virarem grife aqui. A regra no Brasil  consumir muito e poupar pouco. Segundo o instituto de pesquisas Nielsen, os brasileiros guardam 27% do que ganham  contra uma mdia de 39% no resto da Amrica Latina. No ano passado, consumimos quase 10% a mais que em 2011, em especial nas concessionrias (30,3%) e nos supermercados (28,8%). Isso no  ruim na essncia  no Japo, gastam pouco e poupam muito, e a economia deles est estagnada. Mas se a produo no acompanha o consumo, no tem jeito: os preos sobem. Outro problema  que nos endividamos muito. Uma pesquisa recente do Ibope diz que 41% dos brasileiros tm dvidas. Entre os alemes, por exemplo, so 10% (e isso  um recorde histrico l). 
     "Nunca tivemos tanto crdito e, por falta de educao financeira, o pensamento : 'Esto me dando dinheiro, vou gastar'", diz o economista Samy Dana, da Fundao Getlio Vargas. Para Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, "as pessoas no esto acostumadas a lidar com isso. Doce  bom, mas demais lambuza" . Temos uma boa desculpa, at. No faz tanto tempo, em 1993, a inflao medida pelo governo alcanou estratosfricos 2.477%. Todo dia 5, os brasileiros corriam ao supermercado para abastecer a despensa de arroz e feijo e o freezer de carne. Porque, no dia 6, os preos j teriam sido remarcados. Como pensar em poupar em um cenrio desses? O negcio era gastar, antes que o dinheiro  ou seus zeros  direita  desaparecesse. 
     A verdade  que temos muito a aprender sobre como lidar com dinheiro. "Agora chega", diz a economista Virene Roxo Matesco, da FGV "A inflao foi debelada em 1994. J temos uma gerao de consumidores que no sabe o que  isso", diz. "As pessoas no tm ideia do custo-benefcio de poupar". Pois . Uma hora a gente aprende. Mas, se o governo e as empresas no colaborarem, investindo mais em produo e cortando tributos excessivos, no vai adiantar grande coisa. E vamos continuar enxergando os preos justos como uma atrao turstica do exterior. 

Nosso iPhone  joia. Para ter um, o brasileiro mdio precisa trabalhar uma semana, segundo um ranking do banco UBS, da Sua  onde bastam 22 horas.

O VALOR DA LABUTA
Quanto  preciso trabalhar para comprar UM BIG MAC 
BRASIL - 42 MIN.
ALEMANHA - 16 MIN.
EUA  10 MIN
Ranking do Banco UBS

A escalada do Big Mac
O preo do sanduche reflete, em parte, o custo do Brasil.
Ranking da revista The Economist. Preos em reais da poca convertidos em dlares de maro de 2013.
2003: R$ 4,55 (US$ 2,29)
2006: R$ 6,40 (US$ 3,22)
2009: R$ 8,03 (US$ 4,04)
2011: R$ 9,50 (US$ 4,78)
2013: R$ 11,25 (US$ 5,66)

O Brasil vai mal no ndice Big Mac, com o 5 sanduche mais caro do mundo. H dez anos, estvamos em 28 lugar.

BUROCRACIA
Tempo para abrir uma empresa
Fonte: Fiesp/Banco Mundial Barco Mundial
Brasil 119 DIAS
China 38 DIAS

ENERGIA ELTRICA
Preo da eletricidade por kwh
Fonte: Aneel
Residencial: EUA R$ 0,23; Brasil R$ 0,27 (nova tarifa)
Industrial: EUA R$ 0,12; Brasil R$ 0,18 (nova tarifa)

JUROS
sobre emprstimos para capital de giro:
Fonte Fiesp
Brasil 19%
China 3,7%

GASOLINA Litro
Brasil R$ 2,75 (cidade de So Paulo, maro de 2013)
EUA R$ 1,90

DIESEL Litro
Brasil R$ 2,30 (cidade de So Paulo, maro de 2013)
EUA R$ 2

TRANSPORTE
Custo mdio do transporte de soja, da plantao at o porto:
Brasil R$ 166
EUA R$ 36

Fonte: Agncia Nacional do Petrleo (ANP)

ENCARGOS TRABALHISTAS
em porcentagem sobre o salrio
Brasil 57,5%
Itlia 51,8%
Frana 42,7%
China 30,8%
Japo 25,7%
Mxico 22,6%
Holanda 16,2%
EUA 8,8%
Reino Unido 8,2%
Dinamarca 5,5%
ndia 3,6%

BRASIL X EUROPA
Diria de hotel em capitais do pas e do velho mundo.
Hotel Ibis em regies centrais.
Amsterd R$ 293
Paris R$ 253
So Paulo R$ 249
Rio de Janeiro R$ 239
Bruxelas R$ 239
Luxemburgo R$ 188
Madri R$ 188
Viena R$ 175
Belo Horizonte R$ 169
Porto Alegre R$ 169
Berlim R$ 159
Curitiba R$ 155
Lisboa R$ 145
Florianpolis R$ 145
Fortaleza R$ 139
Dublin R$ 97

BRASIL X AMRICA LATINA
Nosso metr de ouro
Bilhetes unitrios em horrio regular
RJ R$ 3,20
SP R$ 3
Braslia R$ 3
Santiago R$ 2,79
Belo Horizonte R$ 1,80
Recife R$ 1,60
Buenos Aires R$ 0,98
Cidade do Mxico R$ 0,46
Caracas R$ 0,47

O VALOR DA LABUTA
Quanto  preciso trabalhar para comprar UMA BUD WEISER
BRASIL 16 MIN.
ALEMANHA 2,5 MIN.
EUA 3 MIN

O CUSTO DA DIVERSO
Churrascarias, orgulho nacional.
RODZIO NA FOGO DE CHO: So Paulo R$ 103; Boston R$ 59,80
INGRESSO DURO DE MATAR NO IMAX: So Paulo R$ 37; Boston R$ 33,30

A cerveja aumentou 13% em 2012 (o dobro da inflao). Parte da explicao est no aumento do preo de matrias-primas como arroz e lpulo. E o aumento da tributao sobre a bebida, que elevou o preo final em 2,85%. No culpe s o bar.

SHOWS DE CIFRAS
Grandes festivais aqui e l fora.
LOLLAPALOOZA 2013
Santiago R$ 270
So Paulo R$ 330
Chicago R$ 192

ROCK IN RIO
2001: R$ 91 (valor corrigido pela inflao acumulada)
2011: R$ 220
2013: R$ 260
Rock in Rio Lisboa 2012: R$ 157

O VALOR DA LABUTA
Quanto  preciso trabalhar para comprar UM HONDA FIT
BRASIL: 2 ANOS E 7 MESES
EUA: 4 MESES E 3 SEMANAS
ALEMANHA: 4 MESES E 3 SEMANAS

COMBO DO ABSURDO 1
Carros e imveis aqui compram mundos l fora.
1 LAMBORGHINI AVENTADOR LP700-4 ROADSTER
Preo no Brasil R$ 3 milhes
NOS EUA com R$ 3 milhes, voc compra:
1 HELICPTERO ROBINSON R 44: RS 920 mil
1 APTO DE 67 M2 EM NOVA YORK: R$ 1,2 milho
LAMBORGHINI AVENTADOR LP700-4 ROADSTER: R$ 890 mil

COMBO DO ABSURDO 2
Pelo preo de uma supercobertura aqui, d para comprar vrios imveis de alto padro na Europa.
COBERTURA NA BARRA DA TIJUCA
Varanda 360, 4 sutes, piscina. Condomnio com campo de golfe.
RIO DE JANEIRO R$ 33 milhes
Com este valor d para comprar:
MANSO DO RAPPER 50 CENT 4,6 mil m2, 52 cmodos, piscinas, quadra de squash e pista do dana. EUA R$ 19,6 milhes
+
CASTELO EMBORDEAUX 8 quartos, 600 m2 de rea til. 4 ha de vinhedos. Puro luxo. FRANA R$ 8,9 milhes
+
APARTAMENTO EM PARIS 115 m2, terrao, 5 quartos, prximo ao parque Bois de Boulogne. FRANA RS 3,2 milhes
+
HELICPTERO EUROCOPTER 315B LAMA. Usado, ideal para altitudes elevadas. USTRIA R$ 1,2 milho
E AINDA SOBRAM r$ 100 MIL!!!

Os cinco imveis mais caros  venda no Brasil ficam no Rio e em So Paulo e custam a partir de RS 27 milhes.

 BOLHA?
Especialistas divergem se h ou no uma bolha de preos. Quem diz que no explica que o volume do crdito imobilirio no PIB, de 5%, ainda  baixo. Na crise de 2008, os EUA tinham 65%. E que os juros ainda esto altos se comparados a outros pases. J quem acredita na bolha diz que o juro est baixo, sim, e que financiar ficou fcil demais. Tanto que o crescimento do crdito comeou a cair em 2011, o que seria um sinal de crise. Ainda que seja uma bolha, os efeitos dela no seriam to devastadores. Mas a histria ensina que certezas sobre bolhas s surgem quando ela estoura.

O VALOR DA LABUTA
Quanto  preciso trabalhar para comprar UM IPHONE 4S
Brasil: 160 HORAS
Alemanha: 55,5 HORAS
EUA: 27,5 HORAS

CONFORTO DO LAR
Quanto custam eletrnicos e utilidades domsticas.
Fonte: Banco UBS
PACOTE COM: geladeira, TV, iPhone, cmera, aspirador de p, frigideira, secador de cabelo, PC e laptop.
Brasil R$ 10,7 mil
Alemanha R$ 9,1 mil
Japo R$ 9,5 mil
EUA R$ 7,7 mil

Uma camisa na Zara custa R$ 99 em So Paulo e R$ 67 em Madri.

BRASIL X EUA Produtos queridinhos em So Paulo e em Miami.
Carrinho de beb
EUA: R$ 530,44
Brasil: R$ 999

Ray-Ban (modelo wayfarer 2140)
EUA: R$ 204,37
Brasil: R$ 490

Camiseta Hollister
EUA: R$ 38,30
Brasil: R$ 70

iPad 32GB com tela de retina
EUA: R$ 1176,79
Brasil: R$ 1999

CK One (50 ml)
EUA: R$ 82,50
Brasil: R$ 165

Cala Diesel Feminina modelo Livier
EUA: R$ 370,69
Brasil: R$ 490

GASTOS DE BRASILEIROS NO EXTERIOR
Hoje gastamos duas vezes mais do que h quatro anos.
Fonte: Banco Central do Brasil
2012: R$ 22,2 bilhes
2011: R$ 21,2 bilhes
2010: R$ 16,4 bilhes
2009: R$ 10,9 bilhes


2. COMPORTAMENTO  D PARA VIVER DE GRAA?
NOSSA REPRTER FOI CONHECER OS ADEPTOS DO FREEGANISMO, QUE CATAM COMIDA NO LIXO PARA NO PARTICIPAR DO MERCADO DE CONSUMO
REPORTAGEM / Carol Pires
DESIGN / Rafael Qtiick
FOTO / Vicente Franca
EDIO / Denis R. Burgierman

     A primeira, quarta-feira de fevereiro anoiteceu gelada, mas Gio Andollo andava pelas caladas de Nova York sem luvas. Acompanhado de outras cinco pessoas que havia acabado de conhecer, ia abrindo grandes sacolas plsticas pretas depositadas na avenida Broadway, em Manhattan, e mexia no lixo  procura de comida. Recomenda-se luvas para quem revira lixo, ainda mais no inverno. Gio, um americano de 28 anos, branqueLo, de culos e dreadlocks, no usava porque, onde a maioria v sujeira, ele v desperdcio. 
     O grupo se conheceu por meio do Meetup.com, um site de organizao de encontros, onde Gio publicara, uma semana antes, um anncio sobre o primeiro grupo de freegans do norte de Manhattan, a chamada Uptown. Freegan vem de free (grtis, livre) + vegan (quem no consome nenhum derivado de ou testado em animais). Adotando estratgias alternativas de vida, eles tentam evitar participao no sistema econmico capitalista: plantar ou resgatar desperdcios em vez de ir ao mercado, consertar em vez de jogar fora, caminhar ou usar bicicleta em vez de ter carro. Se o freeganismo fosse uma religio, comprar seria o pecado capital.
     APESAR de a excurso por lixeiras ser apelidada de dumpster diving (mergulho no lixo), o grupo no chegava a entrar nos contineres. Nessa parte de Nova York, os comerciantes deixam as sacolas na calada. Gio explicou que os sacos deveriam ser deixados to ou mais organizados que antes de serem desamarrados, e todos cumpriram a indicao. Antes de abrir cada sacola, eles apalpavam o exterior para antecipar o que havia dentro. Se notavam formas arredondadas e lisas, podia ser fruta. Se houvesse um monte de formas e texturas, era provavelmente lixo comum que no merecia ser aberto. A estratgia foi bem-sucedida  nenhum saco aberto continha algo nojento ou mal-cheiroso. Talvez por causa do frio, que conserva a comida, ou talvez porque era lixo "fresco" , jogado fora a cada dia por estabelecimentos comerciais, e no lixo caseiro, que passa dias decompondo antes que a lata v para a rua. 
     SAIR PARA resgatar comida no lixo  como procurar o que comer em uma floresta:  preciso conhecer por onde anda e saber onde as boas coisas esto. O conhecimento vem com a prtica. Gio j sabe quais lojas desperdiam mais, o que jogam fora e quando. A primeira parada foi a Morton Williams, uma rede de supermercado, onde eles recolheram frutas e verduras. Em seguida, cruzaram a esquina e encontraram uma caixa de papelo aberta com 22 discos de vinil antigos. A maioria era de msica clssica e trilhas sonoras de filmes. Fiquei com um Concertos for Horn nmero 4 do Mozart.
      A Absolute Bagels, na 2788 da Broadway, s vende produtos frescos, e joga fora a cada noite a sobra do dia. O grupo encontrou um saco cheio com nada alm de bagels dentro  os mesmos que estavam sendo vendidos a um dlar 15 minutos antes. Nada, porm, os deixou to animados como uma caixa cheia de donuts encontrada na frente de uma padaria. Uma mulher que pediu para ficar annima tirou da bolsa um potinho de lcool em gel e distribuiu entre os colegas, que ali mesmo comeram os bolinhos depois de higienizar as mos.  mais fcil evitar o sistema que recusar uma sobremesa. 
     Alm de Gio, faziam parte do grupo o amigo com quem divide o apartamento, a mulher do lcool em gel, a estudante Lyz, e Jos, um equatoriano que veio para Nova York h 15 anos tratar uma doena respiratria e nunca mais voltou. Completava o grupo uma senhora mal vestida, a nica que parecia estar ali mais por necessidade que por convico. Cada um abria um saco e avisava aos demais o que havia encontrado. "Achei a mo direita de uma luva", diz Gio, "algum quer? s vezes  s esperar e eventualmente voc encontra a esquerda. J aconteceu comigo." 
     Alguns so mais exigentes que outros e preferem no levar para casa, por exemplo, uma banana que j tenha marcas de amadurecimento. Outros no se importam em pegar biscoitos com validade expirada alguns dias antes. O que ningum quer volta para o lixo, como a luva solitria. Em duas horas, o grupo no chegou a andar 500 metros  foram da rua 116  110, onde fizeram a ltima parada no Westside Market, um supermercado. Um funcionrio, imigrante russo, olhava enojado os freegans tirarem do lixo o que ele tinha acabado de botar. 
     O grupo voltou para casa com os discos, os bagels, molho de tomate, duas caixas cheias de gua em garrafa dentro da validade, tomates, abacates, pepino, alface, manjerico, manga, limo, mas e as frutas que mais cedo Gio tinha dito serem suas favoritas; roms. 
     Os homens foram embora de metro e eu voltei pelo mesmo caminho da ida com as mulheres. Na esquina seguinte, encontramos duas malas abarrotadas de livros usados. Voltei para casa sem comida, mas com O Estrangeiro, do Albert Camus, e duas biografias, uma do Kafka e outra do ciclista Lance Armstrong. 
     A mulher annima, branca e de olhos azuis, de mais ou menos 30 anos, contou que os avs buscavam comida no lixo durante a Grande Depresso e os pais faziam o mesmo quando viveram a filosofia de liberdade da dcada de 1960. Para ela, revirar lixo  uma afirmao poltica. Tudo que encontra vai para doao ou  colocado em sites de troca e venda, como o Craigslist ou o Freecycle.com. J encontrou um porquinho com US$ 20 dentro e uma mochila cheia de roupas de marca com as etiquetas ainda afixadas. Com as frutas e verduras, ela prepara lanches e d para os moradores de rua. Ela no revela o nome porque prefere no colocar a carreira em risco.  mais fcil deixar de ser reconhecida pela boa ao que tentar explicar por que passa as noites abrindo sacolas de lixo. 
     GIO  filho de cubanos refugiados em Miami do regime de Fidel Castro. Estudou msica em Orlando, na Universidade da Flrida Central, e tinha 23 anos quando terminou a faculdade. Recm-formado, levou trs baques: deu-se conta de que tinha sido ingnuo ao pensar que viveria de msica, a namorada o deixou e foi atropelado de bicicleta. Das experincias, gravou as msicas do primeiro CD, Life is a bike wreck ("a vida  um acidente de bicicleta"). Gio passou aquele ano fazendo trabalho voluntrio e cantando na rua por trocados. Quando juntou US$ 2 mil, mudou-se para Nova York. 
     O primeiro apartamento que encontrou para morar ficava no Harlem. Quatro pessoas dormiam num quarto e ele no futon da sala. Pagava US$ 375. Era 2009, o ano da crise econmica americana, e ele procurava um emprego que nunca encontrou como professor, de msica ou escolar. Vivia de shows no metro e aulas de violo. No segundo ms, o dinheiro acabou. Foi quando lembrou de uma organizao que conhecia na Flrida, que achava comida no lixo e preparava pratos vegetarianos para os pobres. Pesquisou na internet e descobriu que catar lixo era parte de uma filosofia de vida que tinha at nome: freeganismo. 
     O freeganismo empresta ideais do comunismo e do anarquismo, tem preocupaes ambientalistas e uma pitada de filosofia hedonista.  difcil calcular quantos freegans existem no mundo, porque muitos se organizam em comunidades pequenas, em grupos que no esto na internet. No Meetup.com h 15 grupos de dumpster diving ativos, com 5.207 membros no total. H outros 12.796 esperando para que um grupo se forme em suas respectivas cidades. 
     Entre os freegans h exceces, variaes, limitaes. Alguns levam a filosofia ao limite e moram em casas invadidas como afirmao de que moradia deveria ser um direito gratuito. Sem ter de pagar aluguel, nem comida, podem deixar de trabalhar e ter o que o freeganismo defende como essencial: tempo para estar com a famlia e os amigos. Se o freeganismo fosse uma religio, o tempo livre seria a hstia. 
     Mas h tambm freegans que compram bens, at mesmo carros. Para minimizar o impacto ambiental dessa escolha, do carona e adaptam o motor para receber leo vegetal. Quem no se sente cmodo para mergulhar numa lixeira pode manter uma horta ou seguir indo ao mercado, mas optando por feiras verdes e produtores comunitrios. Existem at os meagans, os que so freegans em outros sentidos, mas comem carne. Contanto que no paguem por ela. 
     No mundo inteiro, a Organizao das Naes Unidas para Agricultura e Alimentao calcula que um tero da comida produzida para consumo humano seja desperdiada no caminho entre a produo e o consumo. So 1,3 bilho de toneladas por ano, o suficiente para acabar com a fome no mundo. Nova York  a capital mundial do consumo e, quanto mais consumo, mais desperdcio. Nmeros de 2005 mostravam que os Estados Unidos jogam fora 245 toneladas de lixo slido por dia  2 quilos por habitante, o dobro da mdia brasileira. Em Nova York, a mdia  mais alta: 2,7 quilos. S 15% so reciclados. 
     Nova York tem Wall Street, mas tambm tem, do outro lado do rio Hudson, a regio mais pobre dos Estados Unidos, no Bronx. "Existe uma doena na nossa sociedade, e os sintomas so esses, pobreza, desperdcio. O freeganismo  s uma das respostas", diz Gio, durante um almoo no restaurante onde trabalha das 7h s 14h lavando pratos, em Inwood, no extremo norte de Manhattan. 
     Aos 16 anos, na escola, Gio tinha o costume de pedir aos amigos a sobra do lanche e comia tudo em vez de deix-los jogar fora. "Eu no sabia justificar, mas o fazia pela minha conscincia". At a, era s uma conscincia social literalmente adolescente. De l para c, deixou de estar apenas preocupado e passou a fazer algo a respeito. Deixou de escrever canes sobre desiluses amorosas e comps canes de protesto. Deixou de ser qualificado demais para certos empregos e aceitou a vaga para lavar pratos.
     DUAS semanas depois do primeiro encontro, Gio marcou a reunio dos Uptown freegans no seu prdio, tambm em Inwood. Trs pessoas do primeiro dia apareceram: o equatoriano Jos, a estudante Lyz e seu colega de apartamento. Entre os novos membros havia uma estudante de antropologia de Connecticut e a amiga dela, que s foram observar, uma estudante de jornalismo acompanhada do pai, e uma mulher da vizinhana, contrariando os conselhos do namorado. Cada um disse seu nome, e sua fruta, verdura ou legume favoritos. Respondi manga e aspargo, as primeiras coisas que me vieram  cabea. Na porta do primeiro mercado por onde passamos, pouco antes das 22h, eles tiraram de um continer cinco berinjelas em perfeito estado, 18 potes de iogurte com validade expirando naquele dia, duas caixas de biscoito gua e sal com a validade vencida h dois meses, trs bandejas de cogumelos, vrias verduras, laranja, ma, cenoura, alho e cinco bandejas de ovos. Para pegar os ovos inteiros, Gio e o amigo molhavam a mo na clara e na gema que escorriam dos ovos que estavam quebrados. Procurar comida no lixo  uma afirmao poltica, mas , antes de tudo, a superao do nojo. 
     Jos Luis, um imigrante dominicano, funcionrio responsvel por fechar o mercado s 22h, olhava a cena incrdulo. Em espanhol, comentou em voz alta: "no estou acreditando nisso". Por quer, pergunto. "Porque isso  lixo".  difcil entender por que pessoas bem vestidas comeriam comida do lixo. 
     Ele observou Gio e o grupo tirar as frutas e verduras do continer e coloc-los expostos em bandejas no cho e voltou atrs: "Na verdade, eu no tenho nojo. Essa comida a est em perfeito estado. A gente joga fora porque os clientes j no pagam se tiver um mnimo defeito, uma pontinha da verdura j ficando escura". Depois de baixar as grades do mercado, ele voltou e completou: "Eu uma vez fiquei preso numa selva e comi at lagarto. Eu comeria isso a tambm". 
     Na ltima parada, frente a outro mercado, o grupo encontrou mais verduras, vrias mas, cebola, pimento vermelho e vrias bananas j com grandes marcas marrons, mas ainda firmes. Em 15 minutos, dois vizinhos se aproximaram. Um jovem alto e loiro, que perguntou o que o grupo estava fazendo, levou para casa as bananas. Uma dominicana que voltava do mercado com o carrinho cheio pediu as mas. Gio achou trs cachos de aspargos e perguntou: "algum tinha dito mais cedo que gostava de aspargos, quem foi?" Diante do meu silncio, o menino loiro ficou com eles. Para a mulher annima, era mais fcil pegar comida do lixo que explicar por que o faz. Para mim, o contrrio. 


3. HISTRIA  O VERDADEIRO VELHO OESTE
Leis rgidas. Poucos assassinatos. Menos armas do que hoje. Mulheres recatadas, ndios pacificados e caubis ruins de tiro. Conhea a real histria do oeste  e veja por que ela no tem nada a ver com a dos filmes.
REPORTAGEM / Andreas Mller e Ricardo Lacerda

     "Se voc quer atingir o corao do seu oponente, mire na virilha". Essa era a dica que William "Bat" Masterson, um dos xerifes mais famosos do velho oeste americano, dava a quem fosse se meter num duelo. Ele dizia isso porque, na mdia, os caubis eram bem ruins de tiro. Nada a ver com o que aparece nos filmes de faroeste, que criaram uma srie de lendas e noes que no correspondem  realidade. Uma terra sem lei, onde todo mundo resolvia as coisas na bala? O paraso dos ladres, que viviam saqueando agncias bancrias? Um lugar cheio de mulheres sexy e oferecidas e homens hericos, capazes de grandes feitos em suas eternas batalhas contra os ndios? Na verdade, o velho oeste no era nada disso. 
     At a metade do sculo 19, as nicas terras ocupadas pelos americanos ficavam na costa leste do pas, espremidas entre o litoral e o rio Mississipi  uma faixa equivalente a menos de um quarto do territrio atual dos EUA. As reas onde hoje ficam Califrnia, Nevada, Utah, Texas, Arizona e Novo Mxico pertenciam ao Mxico. O primeiro impulso para alm do Mississipi veio com a descoberta de ouro na Califrnia, em 1848. Anos depois, em 1862, Abraham Lincoln baixou o Homestead Act, uma lei que dava terras no oeste a quem se dispusesse a ocup-las por pelo menos cinco anos. Foi a que o oeste americano comeou a ser povoado para valer. 
     No comeo, as cidades no tinham tribunais, exrcito, delegacias de polcia nem qualquer sinal de segurana oficial.  da que brotam as histrias de atiradores rpidos e baderna generalizada. "Ter fama de bom pistoleiro era uma maneira de ser respeitado e conquistar autoridade", diz Arthur vila, historiador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas  errado pensar no oeste como uma terra sem lei. Os assentamentos eram rigidamente controlados pelo governo. Quando se estabeleciam, os pioneiros tinham de enviar documentos ao Congresso pleiteando o reconhecimento de seus domnios. Feito isso, criava-se um conjunto de regras locais e se institucionalizavam os poderes Executivo, Legislativo e Judicirio. Pronto: o condado j podia eleger prefeito, juiz e xerife. Frederick Nolan, autor de The Wild West: History, Myth and the Making of America ("O oeste selvagem; histria, mito e a formao da Amrica", no lanado no Brasil), conta que os xerifes tinham seus assistentes, conhecidos como deputies, e se submetiam  autoridade dos marshals  agentes da lei que representavam o governo federal. Ou seja: havia governo, sim. 
     E as armas? Em muitas cidades do velho oeste, o controle delas era mais rigoroso do que  nos EUA de hoje. Tombstone, Deadwood e Dodge City eram as mais restritivas. Em 1870, quem chegava a Wichita, no Kansas, via placas com avisos do tipo "Deixe seu revlver na delegacia e faa um registro" ou "Voc  bem-vindo, suas armas no". H imagens que mostram a entrada de Dodge City, em 1879,com um outdoor onde se l: "O porte de armas de fogo  estritamente proibido". Compare isso com a situao atual, em que 49 dos 50 Estados americanos permitem que os cidados tenham armas e andem com elas na rua. Surpreendentemente, o velho oeste era mais responsvel com as armas de fogo.
     Por isso, os homicdios eram raros. Em mdia, as  cidades da fronteira registravam menos de dois por  ano. Mesmo nas cidades grandes, a violncia no era  corriqueira. As cinco maiores cattle towns, vilas formadas em torno da criao de gado, contabilizaram  apenas 45 homicdios entre 1870 e 1885. Em Abilene,  uma das mais violentas, ningum foi morto entre 1869 e 1870. Ellsworth e Dodge City foram as nicas a superar cinco homicdios por ano. 
     Os assaltos a banco eram igualmente incomuns. Os banqueiros construam prdios suntuosos e muito protegidos, porque queriam transmitir a noo de prosperidade e segurana a seus clientes. O historiador Larry Schweikart, da Universidade de Dayton (no Estado de Ohio), identificou apenas "trs ou quatro ocorrncias desse tipo em 15 Estados do oeste entre 1859 e 1900. "Isso sem contar dois grandes assaltos, ambos feitos por Butch Cassidy e Sundance Kid, no  final dos anos 1890. Mas hoje, em apenas um ano, h mais assaltos a banco em Dayton do que em toda  uma dcada de velho oeste", escreve Schweikart. A vida no chegava a ser pacfica, mas tambm no se  resumia a brigas, roubos e tiroteios.
     Os duelos eram raros. Quando aconteciam, eram travados longe das cidades, com hora marcada e observando um catatau de regras: era obrigatrio ter testemunha, sacar as armas ao mesmo tempo, no atirar pelas costas nem mais de uma vez. Mesmo assim, quem se metia em duelos podia ser preso  porque eles eram ilegais. Um dos poucos confrontos documentados aconteceu em Springfield, Missouri, e foi relatado em 1867 pela revista Harper's. O protagonista foi Wild Bill Hickok, que, depois de um desentendimento num jogo de cartas, desafiou o caubi Davis Tutt (e o matou) na rua central da cidade. 
     Alm dos duelos, havia tiroteios: confrontos desregrados e rpidos, que envolviam gangues em disputas de gado, ouro ou comrcio local. O mais famoso aconteceu em 1881, na cidade de Tombstone, e entrou no folclore popular como a grande batalha de OK Corral. De um lado, Wyatt Earp e trs aliados; de outro, os temidos irmos Clanton. Mas tambm no foi o que se imagina. O grande confronto, na verdade, no passou de uma rpida troca de tiros. Durou cerca de 30 segundos e s 3 disparos foram ouvidos, com saldo final de trs mortos e trs feridos. Wyatt Earp, supostamente um heri, foi o nico que saiu ileso. "Ele ficou parado durante toda a luta", diz Nolan. Apesar disso, Earp ficou com fama de duro, e na virada do sculo 19 para o 20 trabalhou como consultor de filmes de bangue-bangue. Em Hollywood, ele manteve contato com John Ford, o mais famoso diretor de westerns da histria. As conversas inspiraram Ford a dirigir o filme Paixo dos Fortes, que retrata os poucos segundos de embate em OK Corral como um episdio longo e sangrento. 
     No filme Django Livre, os atores Christoph Waltz e Jamie Foxx interpretam uma dupla de caadores de recompensas. Mas na vida real poucos homens tinham autorizao para perseguir e capturar bandidos  e ainda receber dinheiro por isso. Na maioria dos casos, os caadores de recompensas eram sujeitos que j tinham ligao com a mquina do governo, atuando como marshals, rangers (patrulheiros) ou xerifes. "O governo terceirizava a busca de criminosos oferecendo recompensas", diz Arthur vila. 
     
CAMPO DE CONCENTRAO
     Nos filmes de faroeste, os ndios costumam ser retratados como inimigos temveis. Mas no era assim. Na verdade, eles foram dominados e oprimidos pelos brancos. J nos primeiros anos do sculo 19, o presidente Thomas Jefferson no escondia a ideia de criar uma zona de "colonizao indgena''  um eufemismo para o que seria, na verdade, um grande campo de concentrao. A ideia tomou forma em 1830, quando o presidente Andrew Jackson assinou um decreto autorizando o governo a remover os ndios para alm do meridiano 95, onde hoje ficam os Estados de Kansas e de Oklahoma. Dolorosa, polmica e violenta, a remoo abriu uma grande ferida na histria dos nativos, que at hoje se referem ao xodo como uma "Trilha de Lgrimas". S entre os Cherokees, mais de 17 mil ndios foram retirados de seus lares. Um episdio conhecido como "Black Hawk War" ilustra bem o clima de tenso: liderados pelo chefe Black Hawk, cerca de mil ndios das tribos Sauk e Fox entraram em confronto com uma milcia de pioneiros formada por quatro mil homens. Mais de 80% dos ndios morreram. Mas o campo de concentrao indgena acabou tendo vida curta. Em pouco tempo, os ndios comearam a se integrar  economia local,  agricultura e  criao de gado. O territrio segregado perdeu a razo de existir em 1907, quando Oklahoma foi oficializado como o 47 Estado do pas. 
     Com ndios relativamente sob controle e uma rotina sem muitas novidades, restava se divertir nos saloons (bares) e bordis da poca. As prostitutas eram moas pobres e maltrapilhas que andavam pouco vestidas. Mas elas destoavam: ao contrrio do que costuma aparecer em filmes de faroeste, as mulheres em geral eram extremamente pudicas  e usavam roupas bem conservadoras. A bebida preferida dos homens era o moonshine. Um usque rudimentar, feito  base de milho, com graduao alcolica que chegava a 80%. Quem produzia tinha de lidar com a m vontade das autoridades, que muitas vezes impunham tributos pesados para coibir a venda. Em 1865, durante a Guerra Civil, o Congresso americano decidiu cobrar US$ 7 de imposto por litro de usque  12 vezes mais do que o custo de fabricao da bebida. O objetivo era torn-la cara demais, e fazer as pessoas pararem de beber. No deu certo, pois ela comeou a ser produzida clandestinamente. Vem da o nome moonshine: na maioria das vezes, os gales de usque eram transportados na calada da noite, sob o brilho da lua. 
     Os mitos do velho oeste comearam a ficar conhecidos antes do surgimento do cinema. A partir da dcada de 1880, caravanas de circo atravessavam o pas encenando batalhas, grandes duelos, pistoleiros e cowboys. Um dos mais famosos espetculos era o Buffalo Bills Wild West Show, criado em 1883 pelo prprio Buffalo Bill, um ex-soldado que era famoso por sua habilidade de derrubar bfalos com um nico tiro. Arthur vila, da UFRGS, diz que os shows eram estrelados por caubis e pistoleiros veteranos, que atraiam mais audincia. Personagens ilustres como o xerife Wild Bill Hickok, a pistoleira Calamity Jane e o lder indgena Touro Sentado integraram a trupe de Buffalo Bill. "Era uma representao simplista, com aquela coisa do bem contra o mal e certa fantasia em cima de tudo isso. Foram os precursores dos filmes western", afirma vila. De to conhecido, o show de Buffalo Bill cruzou o oceano e fez apresentaes na Inglaterra, tendo como convidada de honra ningum menos do que a rainha Vitria. Nasciam, assim, muitas das lendas populares que tornaram o velho oeste bem mais cinematogrfico do que ele realmente foi. 

PARA SABER MAIS 
The Wild West History, Myth and the Making of America. Frederick Nolan. Book Sales, 2004. 
Famous Sheriffs and Western Outlaws. Willian MacLeod Raine Skyhorse Publishing. 2012. 
Legends and Lies  Great mysteries of the American west. Dale L. Walker, Forge Books, 1998


4. IDIAS  POR DENTRO DO TEC
Uma vez por ano, CEOs de grandes empresas, presidentes de fundaes, estrelas do rock e de Hollywood, prmios Nobel e nerds de todas as idades se encontram na conferncia mais espetacular do mundo. A SUPER no podia perder essa.
EDIO E REPORTAGEM / Denis Russo Burgierman

     "Vivemos num mundo em que o show  importante", explica Sebastio Salgado, sentado num sof dentro do Centro de Artes Cnicas de Long Beach, na Califrnia. Salgado tinha acabado de terminar sua apresentao na edio de 2013 do TED, a conferncia mais importante para a classe criativa do mundo. Ao final da sua fala, todo o pblico do teatro levantou-se ao som crescente de um uivo que explodiu em aplausos, gritos e assobios. Era o chamado "momento TED", o equivalente na conferncia californiana ao que o gol  no futebol. 
     '' importante que haja um heri, um caubi", diz Salgado, nico brasileiro no TED de 2013, sobre seu prprio papel. Estou sentado ao lado do fotgrafo mais reconhecido do Brasil, batendo papo como quem conversa com o av num almoo de domingo. Este  o tipo de coisa que acontece no TED, uma conferncia dedicada a espalhar ideias, cujo clima intimista  diferente de tudo que existe no mundo. 
     Salgado me conta da crise de sade que quase o matou uma dcada atrs. "Eu estava morrendo. Meu trabalho de fotografia me levou a ver tanta morte que eu ia morrer tambm." Para escapar da morte, ele se mudou de Paris para a fazenda paradisaca onde passou a infncia, no interior de Minas. Chegou l, viu tudo devastado, quase nenhuma rvore em p. Sua esposa, Llia, resolveu que iria reflorestar a rea. Ela montou um instituto, contratou um engenheiro florestal e, dez anos depois, a propriedade voltou a ser o que era h seis dcadas, na infncia do menino que viria a ser fotgrafo. Salgado emocionou o pblico mostrando as fotos do "antes" e do "depois" e aproveitou para pedir apoio para o instituto. Dada a reao do pblico, ele estava confiante de que ia conseguir. 
     Despeo-me do fotgrafo, deixando-o nas mos do prximo que quisesse conversar com ele e vou almoar num dos trailers de comida que ficam estacionados do lado de fora do teatro onde o TED acontece. Atrs de mim, na fila da comida, para um sujeito gordo e agitado. Olho para o grande crach pendurado no pescoo dele, que o identifica: Matt Groening. 
     No TED, todo mundo anda por a com um crachazo de letras garrafais, informando o nome, o cargo e o lugar onde trabalha. Todo mundo usa o crach, ainda que o nome impresso seja Matt Groening, Ben Affleck, Al Gore ou Bono. Segundo as regras do TED, o crach deve ficar sempre  mostra, convidando  interaco. Ergo o meu entre meu polegar e indicador e me apresento para o criador dos Simpsons. 
     Enquanto esperamos a comida ficar pronta, damos risada do episdio dos Simpsons que tira onda do Rio, retratando-o como uma metrpole selvcola dominada por uma gangue de macacos ladres "Aquilo foi uma bobagem", ele diz, e conta que sempre quis conhecer o Brasil, mas que nunca d tempo, porque continua envolvido com a feitura de cada episdio semanal do desenho animado que  a srie mais longeva da histria da TV, com 23 anos no ar. Pergunto se ele no tira frias. "Frias, para mim,  isto aqui", diz, apontando para o gramado  nossa volta, cheio de CEOs, movie stars, investidores e adolescentes prodgio. " aqui que eu me inspiro." 
     No  a ideia de frias que a maioria das pessoas tem. O TED  exaustivo. So cinco dias seguidos, que comeam s 8h30 da manh e avanam pela madrugada. A cada dia, ocorrem at 30 palestras, a maioria delas complicada e cabeuda. A cada sete ou oito palestras, h um intervalo como este no qual converso com Salgado e Groening, acompanhado por boa comida de dia e boas bebidas de noite. Nessas pausas, o pblico  incentivado a interagir uns com os outros. Milhares de cartes de visita mudam de bolsos. 
     Pego minha salada, me despeo amigavelmente do pai do Bart e vou caminhando em busca de uma lugar para comer. Na primeira mesa, que no estava inteiramente cheia, a atriz Cameron Diaz, vestida num poncho que a protege do frio ensolarado do inverno californiano, conversa polidamente com alguns frequentadores do evento. A mesa ao lado estava bem mais animada, com todas as cadeiras ocupadas e vrias pessoas de p em volta do jornalista Michael Pollan, que falava da origem da comida que estava sendo servida. No TED, Michael Pollan, autor de livros como Em Defesa da Comida,  uma celebridade maior que Cameron Diaz. 
     Olhando os crachs nos pescoos, d para se ter uma ideia de quem  o pblico do TED. Muita gente que trabalha em cargos altos de empresas de tecnologia, como Facebook, Microsoft, Google. Muita gente cujo nome  o mesmo da empresa ou da fundao onde trabalha  fundadores, CEOs, presidentes. Muitos sobrenomes tradicionais da aristocracia americana (Ford, Rockefeller, Sagan) e tambm novos sobrenomes da nova aristocracia (como Bezos, a famlia do fundador da Amazo). Muita gente representando instituies respeitadas da cincia ou da cultura, como a Academia Nacional da Cincia, a Fundao McArthur, que d dinheiro a gnios, o Lincoln Center, que abriga as artes, a Encyclopedia Britannica. 
     Para assistir ao TED,  necessrio se inscrever no site, preenchendo um longo formulrio no qual voc  obrigado a responder por extenso perguntas como "o que lhe d paixo?", "quais suas maiores conquistas?" e "pode nos contar uma anedota memorvel de sua vida?". Milhares de fichas so preenchidas, mas o auditrio s comporta 1.400 pessoas. A equipe do escritrio do TED em Nova York, ento, seleciona entre as inscries pessoas que so "lderes em seu campo e que podem contribuir com a comunidade TED por meio de sua energia, influncia e conexes para mudar o mundo". 
     S depois de passar por essa seleo, ganha-se o direito de pagar os US$ 7.500 do ingresso. (Esclarecimento: o reprter da SUPER foi uma das 40 pessoas do mundo agraciadas com uma credencial de imprensa, e portanto foi poupado desse gasto. Lderes de organizaes do mundo em desenvolvimento e jovens promissores tambm so convidados para entrar de graa.) 
     H tambm um bom nmero de pessoas que preferem pagar US$ 15 mil ou mesmo US$ 125 mil dlares, para serem "doadores" ou "patronos" do TED. O doador tem alguns benefcios extras, como assento guardado caso chegue atrasado. J o patrono  convidado para jantares de recepo para os palestrantes e pode ter uma sala privada para reunies dentro da conferncia. 
     Alm do dinheiro dos frequentadores, o TED recebe de empresas que tm permisso para discretamente anunciar sua marca para aquela audincia hiperinfluente. H vrios grandes patrocinadores corporativos, como a Shell, que num texto avisa ao pblico que "estamos aqui para ouvir, compartilhar e aprender". 
     Mas muitos dos anunciantes so marcas pequenas, novas, lanando-se no mundo, tentando ser notadas por um pblico que tem influncia e dinheiro suficientes para mudar o rumo da histria. Numa mesa num canto, iPads fazem escaneamento tridimensional do rosto dos presentes para depois encaixar nele, com perfeio, modelos virtuais de culos escuros, das melhores marcas. Os convidados do TED podiam escolher o par que ficasse melhor na sua prpria imagem e pedir para entregar em casa. De graa, como promoo de lanamento da Glasses.com.
     Mas o que faz com que a entrada de US$ 7.500 valha a pena  e todas as pessoas para quem perguntei garantem que vale  no so os brindes luxuosos (que so mesmo bem bons). So as palestras. Ou, na linguagem do TED, as talks ("falas"). O efeito que elas tm nas pessoas  impressionante. A sequncia bem encadeada de falas rpidas, nunca maiores do que 18 minutos, s vezes menores do que cinco, surpreendentes, inspiradoras, emocionantes, vai aos poucos colocando todo mundo numa espcie de transe mental. Os sintomas podem ser notados em todos os cantos, na hora dos intervalos: nos olhos vermelhos de choro, na empolgao das rodas de conversa. 
     H as falas de celebridades, que obviamente so bastante esperadas e aplaudidas. Bono, do U2, por exemplo, tirou seus culos famosos, virou-os de ponta-cabeca e ficou com cara de nerd para combinar melhor com o ambiente cheio de donos de empresas de tecnologia. Contrariando a tradio do TED, ele leu um teleprompter. Fez uma boa palestra sobre a reduo da pobreza extrema do mundo nas ltimas dcadas e a possibilidade de erradic-la nas prximas e foi educadamente aplaudido por todos. 
     Trs dias depois de ganhar o Oscar de melhor filme, o ator e diretor Ben Affleck fez uma apario-surpresa no palco principal do TED. Brincou com a audincia: "este  o Oscar das pessoas inteligentes", disse, antes de pedir desculpas por no ser capaz fazer uma palestra de "nvel TED". "Sou inteligente, mas inteligente nvel Oscar." 
     Celebridades do mundo empresarial tambm so presenas constantes, muitas vezes anunciando novidades. Sergey Brin, fundador do Google, fez uma apario-surpresa, usando os esperadssimos Google Glasses, que vo permitir checar os e-mails e trocar mensagens no prprio campo visual, usando apenas o movimento das pupilas. 
     Mas a verdade  que, ano aps ano, as falas que mais mexem com as pessoas e que geram momentos TED mais intensos no so as das supercelebridades. So as de pessoas nas quais a maioria nunca havia sequer ouvido falar. 
     Em 2013, aconteceu muito disso. O tema do ano  The young, the wise, the undiscovered ("os jovens, os sbios, os desconhecidos") - colaborou para isso. Um dos maiores momentos TED foi ao final da fala de Richard Turere, um menino de 13 anos, da tribo Maasai, do Quenia. Turere vive em um rancho e sempre odiou lees, porque eles comiam os bezerros que garantiam o sustento de sua famlia. Um dia, ele notou que os lees evitavam se aproximar quando havia luzes acessas. A ele inventou um sistema de luzes led instaladas sobre as cercas, piscando noite adentro. Os lees no importunaram mais. Ele diz que no odeia mais os lees, porque os entende melhor. 
     Outro momento alto foi a fala de Amanda Palmer, ou Amanda "Fucking" Palmer, como ela escreveu  caneta no prprio crach. Amanda, uma cantora underground que mistura punk e cabar, fez uma fala emocionante sobre a importncia de saber pedir ajuda  e ela sabe do que est falando, j que s faz turns se hospedando na casa de fs e acabou de financiar sua ltima turn num site de crowdfunding que arrecadou USS 1,2 milho. 
     A fala de Amanda foi um desses clssicos instantneos do TED. O vdeo foi ao ar antes mesmo de a conferncia acabar (o TED normalmente sobe os vdeos gradualmente, ao longo de anos). O sucesso foi tanto que Amanda voltou ao palco duas vezes, para cantar (h vrias apresentaes artsticas entre as palestras, que, segundo os organizadores, servem para "abrir as mentes para as ideias"). Quando eu escrevi este texto, duas semanas depois do TED terminar, 1,5 milho de pessoas j haviam assistido  fala de Amanda, que j tinha sido legendada colaborativamente em oito lnguas. 
     Na viso de Chris Anderson, curador, apresentador e principal executivo do TED, a conferncia  uma grande distribuidora de ideias "Amamos espalhar ideias e estamos felizes de ter encontrado um modelo de negcios que nos permite fazer isso", disse ele, numa entrevista coletiva durante a conferncia. O tal modelo de negcios do TED, segundo o prprio Chris,  muito simples de explicar: "pegamos dinheiro de alguns ricos da Califrnia e gastamos com ideias no mundo inteiro." No ltimo ano, foram US$ 45 milhes  de dlares arrecadados para esse fim. 
     No por acaso, o slogan da conferncia  "ideias que merecem ser espalhadas", uma sacada de Chris Anderson depois que ele assumiu o controle do TED em 2001. At ento, a conferncia era totalmente fechada e reunia apenas membros de trs indstrias americanas: Tecnologia, Entretenimento e Design (basicamente um encontro do Vale do Silcio com Hollywood para ver palestras de gente brilhante de todos os ramos). O TED, ento, no espalhava ideias: apenas cultivava-as, ao aproximar grandes pensadores dos chefes de algumas das indstrias mais poderosas do mundo. 
     Chris resolveu mudar o esprito da coisa e comeou a abrir a ento fechadssima conferncia. Em 2005, criou um segundo TED, o TED Global, que desde ento tem acontecido no vero, todos os anos, no Reino Unido. A partir de 2006, ele criou o ted.com, um site que oferece de graa a qualquer um falas pelas quais o pblico havia pago caro para assistir ao vivo. As palestras online fizeram tanto sucesso  j foram vistas mais de 1 bilho de vezes  que milhares de pessoas mundo afora passaram a trabalhar de graa para ajudar o TED na sua misso de espalhar ideias. Em 2009, o TED passou a permitir que qualquer pessoa traduza qualquer palestra para qualquer lngua e, em quatro anos, 11 mil tradutores voluntrios fizeram 37 mil tradues para 97 lnguas. No mesmo ano, criou-se o TEDx, uma espcie de TED que pode acontecer em qualquer lugar do mundo, organizado por qualquer pessoa, com entrada grtis. De l para c, mais de 5 mil TEDx aconteceram em cada canto remoto do mundo, incluindo o Iraque, o Ir, o Imen, a Antrtida, o Afeganisto, favelas, presdios, a muralha da China e um palco flutuando no Rio Negro, na Floresta Amaznica. 
     O TED de 2013, como sempre, ps vrias ideias poderosas para circular. O professor de Harvard Larry Lessig props uma mudana radical no sistema de financiamento de campanhas, para que os polticos trabalhem para a populao, e no para meia dzia de financiadores. O bilogo Allan Savory, do Zimbbue, props um novo modo de olhar para a desertificao e afirmou que voltar a soltar rebanhos nos pastos pode ser a soluo para as mudanas climticas. A ex-governadora do Michigan, Jennifer Granholm, conclamou os empresrios presentes a criarem a poltica de energia do futuro sem passar pelos polticos. Houve at um momento em que o cantor pop Peter Gabriel subiu ao palco junto com uma especialista em golfinhos, um designer de novas tecnologias e Vint Cerf, um dos inventores da internet, e os quatro propuseram que se criasse uma nova internet que seja tambm interespcies, para que pudssemos mandar e-mails para macacos, golfinhos e elefantes. 
     Da para frente, sero os mritos de cada ideia, registrada em vdeo, que vo determinar quais delas sobrevivero e acabaro mudando o mundo. E quais viraro piada. 
     Um dos temas mais importantes do TED de 2013 foi educao. O palco esteve cheio de adolescentes brilhantes contando como eles tiveram de driblar a rigidez do sistema educacional para perseguir suas paixes. Um deles, Taylor Wilson, projetou um novo tipo de reator nuclear, movido a bombas atmicas desativadas, antes de terminar o ensino mdio. Outro, Jack Andraka, provavelmente salvou milhares de vidas aos 15 anos, ao desenvolver um teste de cncer pancretico centenas de vezes mais barato e eficaz. Os dois meninos eram fisicamente parecidos, magros e tmidos. A piada do TED foi que o menino era to genial que resolveu a crise de energia num dia e, no dia seguinte, curou o cncer. 
     
     Essas numerosas demonstraes de brilhantismo precoce contrastaram com a descrio desanimadora do atual estado do sistema educacional do mundo, pintado pelo pesquisador indiano Sugata Mitra, ganhador de 2013 do j tradicional Prmio TED. Mitra foi o autor do experimento clssico de educao conhecido como "o buraco na parede": em 1999, ele colocou um computador num buraco na parede numa favela indiana e deixou as crianas brincarem com ele, sem que ningum interferisse, notando que o aprendizado era surpreendente. A partir da, ele passou a defender um novo modelo de educao, "minimamente intrusivo". 
     "A educao est obsoleta", disse Mitra em sua fala, sorridente, enquanto aceitava o prmio de US$ 1 milho de dlares  pouco mais que o Nobel. Segundo Chris Anderson, esse dinheiro deve ser visto "no como um prmio de reconhecimento, mas como o capital inicial para um novo empreendimento". Ou seja, a quantia ser gasta construindo essa nova viso de educao, na qual as crianas, em vez de serem permanentemente vigiadas e receberem pacotes de informao pr-selecionada, sero deixadas em paz com problemas para resolver e as ferramentas certas para resolv-los. Mitra acredita que esse sistema, em vez de "levar as crianas  submisso pelo tdio", criar uma gerao mais capaz de se divertir enquanto aprende. Ser que as escolas do futuro sero um pouco mais como o TED, lugares de alta energia emocional, onde se vive intensamente enquanto se aprende? 
     Na sexta-feira, aconteceu o churrasco de encerramento. Foi a despedida de Long Beach, aps quatro anos de TED l (antes a conferncia acontecia 500 quilmetros ao norte, na tambm californiana Monterey). O prximo TED acontecer em Vancouver, no Canad. Enquanto o TED americano muda-se para o norte, o TED Global, que sempre foi no Reino Unido, tambm parece estar de malas prontas. O prximo ser em junho em Edimburgo, a capital da Esccia, mas, segundo a fofoca corrente no churrasco de despedida  que os organizadores no confirmaram , o de 2014 acontecer sobre areia fina. Diz o rumor que ser na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. A comunidade TED est empolgadssima com a viagem. 
     Passeando pelo churrasco, vejo Al Gore cruzar olhares com o espalhafatoso japons Black, campeo mundial de ioi, uma das atraes artsticas da conferncia. Richard Turere, o menino queniano que espanta lees, reclama da saudade da comida do Qunia e conversa animado sobre futebol (ele torce para o Chelsea e tratou com desdm o ttulo corintiano). Estrelas de Hollywood se confraternizam com cientistas famosos, sob o olhar de bilionrios da internet. Mais um TED se acaba. E agora vai todo mundo para casa, recarregado de inspirao, cheio de ideias para espalhar.

Nas prximas pginas, algumas ideias que o TED 2013 espalhou

Queramos algo que liberte suas mos. E liberte seus olhos. - SERGEY BRIN, FUNDADOR DO GOOGLE, APRESENTANDO O CULOS GLASS.

Descobri que lees tm medo de luzes que mexem. Agora quero levar isso ao Qunia todo. - RICHARD TURERE, 13 ANOS, INVENTOR DAS LUZES ANTI-LEO.

A educao est obsoleta. Ela no est quebrada  ainda funciona. Mas no faz o que precisamos.  SUGATA MITRA, PRMIO TED 2013.

Amamos espalhar ideias e encontramos um modelo de negcios que nos permite fazer isso. - CHRIS ANDERSON, CURADOR E APRESENTADOR DO TED.

Informao pode reduzir desigualdade. Fatos, como pessoas, querem ser livres.  BONO, ROCK STAR.

Eu estava cansado da fotografia. A minha mulher me disse: 'vamos reconstruir o paraso onde voc cresceu'. - SEBASTIO SALGADO, FOTGRAFo.

Precisamos criar uma Nasa para explorar os oceanos. - EDITH WIDDER, BILOGA QUE CONSEGUIU FILMAR PELA PRIMEIRA VEZ A MONSTRUOSA LULA GIGANTE.

Terminei o ensino mdio em maio e agora quero comear uma empresa de energia nuclear. - TAYLOR WILSON, 14 ANOS.

Escolho meus projetos pensando no que precisa acontecer para o futuro ser mais empolgante. - ELON MUSK, FABRICANTE DE CARROS ELTRICOS E FOGUETES ESPACIAIS.

Se animais pastarem em metade dos campos do mundo, ser o fim das mudanas climticas. ALLAN SAVORY, BILOGO.

Precisamos um governo que funcione  para todos ns, e no s para quem paga a campanha. LARRY LESSIG, JURISTA.

No importa quem voc . O que importa so as suas ideias. JACK ANDRAKA, 15 ANOS. INVENTOR DE UM MTODO DE DETECO DE CNCER.

Pedir ajuda nos conecta com as pessoas  e, conectadas, elas vo querer ajudar. - AMANDA PALMER, CANTORA

Educao no  encher baldes.  acender fogos. STUART FIRESTEIN, NEUROCIENTISTA, DEFENDENDO QUE, PARA O APRENDIZADO, A IGNORNCIA  MAIS VALIOSA DO OUE O CONHECIMENTO.



5. CINCIA  COMO FAZER UMA BOMBA ATMICA
No  to fcil quanto dizem. Mas tambm no  to difcil assim. Veja o que um pas  ou um grupo terrorista  precisa fazer para construir uma bomba.
REPORTAGEM / Joo Vito Cinquepalmi
DESIGN / Rafael Quick
ILUSTRAO / Jonatan Sarmento
EDIO / BrUNo Garattoni

     Leonid Smirnov trabalhava num laboratrio nuclear em Podolsk, a 40 km de Moscou. Era um bom emprego, muito valorizado pelo governo (era preciso passar por uma investigao da KGB antes de ser contratado), pagava um bom salrio. Mas com o fim da Unio Sovitica, em 1991, as coisas mudaram. A economia entrou em colapso, a inflao daquele ano bateu em 200% e Leonid viu seu padro de vida despencar. Foi a que teve uma ideia; roubar urnio do laboratrio para vender. Toda vez que os colegas saam para fumar, ele pegava 50 gramas de urnio e escondia no bolso. Como era uma quantidade pequena, ningum percebeu. Leonid roubou urnio durante cinco meses, e conseguiu acumular 1,5 kg  que escondeu num pote em casa. "Eu no sabia quanto cobrar, nem para quem vender, ento pensei em procurar empresas estrangeiras", contou na; poca. Foi o que ele fez, at que acabou sendo denunciado e preso. Ele disse que queria dinheiro para comprar uma geladeira e um fogo novos. A histria de Leonid Smirnov  apenas uma entre centenas de casos. Pelo menos 22 pases j registraram casos de contrabando nuclear, e s no ano passado houve mais de 20 episdios confirmados de roubo ou perda de materiais radioativos  principalmente urnio e plutnio, que podem ser usados para fabricar bombas atmicas. A busca pela bomba atmica movimenta um mercado negro internacional, que se desenvolveu muito nas ltimas dcadas e envolve Estados, organizaes criminosas, grupos terroristas, cientistas mercenrios  tudo girando em torno de grandes somas de dinheiro. Em maio de 2012, trs pessoas foram condenadas na Moldvia, no leste europeu, por tentar fazer trfico de urnio. O grupo foi preso durante uma ao que envolveu os servios de inteligncia dos EUA, da Alemanha e da Ucrnia. Segundo as autoridades, eles estavam oferecendo um quilo do material em troca de US$ 38 milhes. Ou seja, 760 vezes mais caro do que o ouro. 
     O urnio  valioso porque ele  o corao de um bomba atmica. Tambm  possvel construir uma com plutnio, mas o plutnio no existe na natureza ( produzido em reatores nucleares), e por isso  muito difcil de conseguir. J o urnio  encontrado em rochas por toda a crosta terrestre, e no  preciso ter muita tecnologia para extra-lo. Tanto que at a Nigria, um pas industrialmente primitivo, est entre os maiores produtores mundiais. Pelo menos 19 pases tm minas de urnio (no Brasil, ele  explorado em Caetit, no interior da Bahia). Voc pode procurar uma jazida e tentar extrair o material por conta prpria. Ou simplesmente procurar algum que esteja disposto a vend-lo. Segundo a Agncia Internacional de Energia Atmica (Aiea), existem 1.400 toneladas de urnio enriquecido (adequado para uso em usinas nucleares e bombas atmicas) espalhadas pelo mundo. Os EUA e a Rssia detm 95% disso. E h indcios de que o material, principalmente no que diz respeito aos russos, est sendo negociado no mercado negro. Entre 1993 e 2011, foram registrados nada menos do que 399 incidentes envolvendo posse no-autorizada e tentativas de compra e venda de material radioativo. "O material necessrio [para um artefato nuclear] cabe perfeitamente em uma mala, e no  radioativo a ponto de impedir seu manuseio", explica Matthew Bunn, professor da Universidade Harvard e especialista em proliferao nuclear. A fabricao da bomba em si no  to difcil, pois as tcnicas necessrias esto disseminadas e ao alcance de cientistas de todo o mundo. "A tecnologia para a construo de uma bomba atmica improvisada  simples e conhecida", diz Irma Arguello, diretora da Fundao de No Proliferao para Segurana Global (NPSGlobal). E existe muita gente interessada em fazer isso. "Ns sabemos, por exemplo, que a Al-Qaeda tentou obter uma arma nuclear", diz Sharon Squassoni, diretora do Centro de Estratgia e Estudos Internacionais (CSIS), uma ong americana especializada em poltica internacional. "Acho que tivemos muita sorte de no termos testemunhado o uso de armas nucleares nos ltimos 60 anos", afirma. Ento elas vo continuar a se espalhar pelo mundo  e  apenas uma questo de tempo, ou de sorte, at que caiam em mos erradas e dispostas a provocar um conflito nuclear? Mais ou menos. Fazer uma bomba atmica tambm tem um lado muito difcil.

PARTE DURA
Abdul Qadeer Khan nasceu na ndia em 1936. Quando tinha 16 anos, emigrou para o Paquisto, onde fez faculdade de metalurgia. Depois, estudou na Alemanha e na Holanda, fez doutorado na Blgica e foi contratado pelo consrcio Urenco, uma associao de empresas europeias que trabalhava com processamento de urnio. Khan era muito aplicado, e demonstrava enorme interesse pelo urnio  tanto que o governo holands comeou a suspeitar e quis prend-lo. Mas os EUA pediram que ele no fosse preso, pois queriam dar corda a Khan para entender qual era seu real objetivo. Era dar no p. Em 1975, Khan fugiu da Holanda para o Paquisto, levando consigo as tecnologias e a lista de fornecedores da Urenco. Virou heri nacional  porque, graas a ele, o pas conseguiu produzir urnio suficiente para uma bomba atmica. E Khan no parou a: comeou a exportar e revender tecnologia nuclear para outros pases, como Ir, Coreia do Norte e Lbia. Mas, mesmo tendo todos os materiais e as instrues necessrias e um oramento gigantesco, estimado em US$ 2,5 bilhes anuais, ele demorou dez anos para conseguir produzir urnio suficiente para uma bomba. 
     No caso, 52 quilos. Segundo um artigo escrito por um grupo de cientistas do Laboratrio Nacional de Los Alamos, que ajudou a desenvolver a tecnologia nuclear dos EUA, essa  a quantidade necessria para que ocorra a chamada massa crtica, iniciando a reao em cadeia que faz a bomba explodir [veja no infogrfico ao lado]. Se for usada uma tecnologia simples  o refletor, uma espcie de espelho que rebate as partculas dentro da bomba , a quantidade de urnio necessria ca para 26 quilos. Mas ainda  muito. Porque no basta pegar o urnio e colocar dentro de uma bomba.  preciso submet-lo a um processo extremamente complexo. 
     Na natureza, existem dois istopos (tipos) de urnio, o U-235 e o U-238. Este ltimo  de longe o mais comum: representa 99,3% de todo o urnio da Terra. O problema, por assim dizer,  que ele no serve para fazer uma bomba. O material que realmente interessa  o U-235, que corresponde a apenas 0,7%. Bem pouco. E, para complicar as coisas, ele vem misturado com o urnio ruim. Se voc quiser fazer uma bomba, tem de separar o urnio bom do urnio ruim  num processo que se chama enriquecimento. " como separar feijo. Voc joga um monte na mesa. Quase todos so pretos, mas sempre h um ou dois brancos.  destes que voc precisa". explica o fsico Jos Goldemberg, da USP. 
     Primeiro, o urnio  transformado em gs e colocado em uma centrfuga. Conforme a centrfuga gira, ela vai separando o U-235, que  mais leve, do U-238, que  mais pesado. Esse processo  repetido muitas vezes e vai gerando um material cada vez (mais concentrado, ou seja, com maior teor de U-235. Se voc quiser urnio para alimentar uma usina nuclear, basta elevar a quantidade de 0,7% para 3%. J para fazer uma bomba, a concentrao tem de ser enorme: no mnimo 90% de U-235. Isso exige alta tecnologia, e est sujeito a diversos problemas. Em 2010, o vrus de computador Stuxnet (supostamente criado pelos EUA ou por Israel) contaminou as centrfugas do Ir e as fez girar rpido demais, at queimar, o que atrapalhou a produo de urnio e atrasou o programa nuclear do pas
     Que tal comprar o urnio j enriquecido, ento  mais prtico. Mas tambm no  fcil. Dos 399 casos de contrabando nuclear registrados entre 1993 e 2011, apenas 16 envolviam urnio enriquecido no grau necessrio. Alm disso, a quantidade era sempre muito pequena, e no chegava nem perto dos 26 quilos necessrios para uma bomba. 
     Ou seja: na prtica, voc tem de enriquecer o seu prprio urnio. E isso  coisa de gente grande. Cinco naes admitem ter armas nucleares; EUA, Rssia, Frana, Reino Unido e China. No por acaso, so os membros permanentes do Conselho de Segurana da ONU. Existe tambm a confirmao de que ndia, Paquisto e Coreia do Norte tm bombas atmicas, uma vez que j fizeram testes nucleares. O ltimo caso  o de Israel. Apesar de nunca ter admitido, a maioria dos especialistas inclui o pas como uma das naes possuidoras de armas nucleares. 
     No total, nove pases. Poderiam ser muito mais se no tivesse sido colocado em prtica, em 1970, o Tratado de No-Proliferao de Armas Nucleares. Atualmente, 189 pases so signatrios, inclusive os cinco do Conselho de Segurana. Todos concordaram em no desenvolver novas bombas, embora ainda possam pesquisar e utilizar a energia nuclear  desde que para fins pacficos, e sob o monitoramento de inspetores da Aiea. O tratado obteve sucesso. Diversos pases da Amrica Latina abandonaram seus esforos para ter armas nucleares. O mesmo ocorreu com a frica do Sul. Mas h cinco pases que no so signatrios do acordo. ndia, Paquisto e Israel no assinaram porque achavam que " iriam precisar das armas para defender suas fronteiras. A Coreia do Norte chegou a ser signatria, mas decidiu se retirar do pacto em 2003. O Sudo do Sul, que se tornou um Estado independente em 2011,ainda no assinou. Alm disso, recentemente o Ir tem sido acusado de descumprir o acordo, pois tem impedido a Aiea de fiscalizar suas instalaes. 
     A agncia promove programas para tentar controlar os estoques de plutnio e de urnio enriquecido no mundo. Uma de suas principais estratgias  recolher o material depois que ele  utilizado em reatores nucleares. A principal ao at hoje foi realizada na Srvia. O combustvel utilizado pelo Instituto Vinca de Cincia Nuclear foi mandado de volta para a Rssia, onde tinha sido fabricado. O reator srvio utilizou urnio enriquecido at 1984. Depois, disso, o material ficou armazenado em condies precrias e sem nenhuma segurana, at ser retirado em 2010. Nos ltimos anos, lderes de vrio pases tm se encontrado para tentar solucionar justamente esse problema: o que fazer com o material nuclear espalhado pelo mundo. "O presidente dos EUA tem feito Cpulas de Chefes de Estado para tratar de segurana nuclear. A primeira foi realizada em 2010, em Washington, e a segunda em 2012, em Seul", conta Irma Argello. Os lderes de vrios pases se comprometeram a garantir, at 2014, a segurana de todo o seu material nuclear. 
     Mesmo com todas as dificuldades tcnicas e as medidas de segurana, no  possvel descartar um ataque nuclear  principalmente se ele estiver ligado a grupos terroristas. Isso porque eles podem tentar construir outro tipo de artefato: a bomba radiolgica, tambm conhecida como "bomba suja". Ela no gera uma reao nuclear. Na verdade, no passa de uma bomba comum  s que apimentada com material radioativo. Quando explode, espalha uma nuvem de material radioativo, que  suficiente para cobrir o centro de uma cidade. Ela no mata quase ningum na hora  mas pode deixar uma rea contaminada por dcadas. E, para fazer esse tipo de bomba, no  preciso usar urnio ou plutnio. Materiais muito mais comuns, como o csio das mquinas de raio-X hospitalar, tambm servem. 
     A bomba suja preocupa os especialistas. No comeo deste ano, helicpteros da Administrao Nacional de Segurana Nuclear, do governo americano, sobrevoaram toda a extenso da cidade de Washington. O objetivo foi mapear os nveis de radiao na capital americana. As autoridades querem vigiar os nveis de radiao porque, se eles mudarem em algum ponto da cidade,  sinal de que ali existe uma bomba suja  que ento poderia ser interceptada e desarmada antes de explodir. 
     Em 1947, um grupo de fsicos nucleares da Universidade de Chicago criou o ''relgio do Juzo Final", medida simblica que indica quo prximo o mundo est de uma guerra nuclear. Quanto mais perto da meia-noite, mais perto a humanidade est desse apocalipse. O relgio estreou marcando 23h53. Em 1991, quando os EUA e os russos assinaram um tratado de reduo de seus arsenais, o relgio alcanou seu ponto mais baixo - regrediu para 23h43 Mas, com a proliferao nuclear, ele voltou a avanar. Agora, est marcando 23h55. 

 MATRIA-PRIMA
Como se obtem e se prepara urnio para uma bomba

1- O urnio  um metal relativamente abundante  a Terra contm 40 vezes mais urnio do que prata.  A maior parte da produo mundial (36%) vem do Cazaquisto, mas o material tambm pode ser obtido em 18 outros pases.
2- O material extrado  modo e misturado com substncias qumicas que isolam o urnio do resto.
3- Mas 99% do urnio  do tipo U-238, que no serve para a construo de uma bomba. Ele precisa ser separado do urnio que interessa: o U-235.
4- Essa separao se chama enriquecimento do urnio. A primeira etapa  misturar o metal com cido hidrofluordrico (HF). Isso provocar reaes qumicas que vo transformar o urnio num gs: hexafluoreto de urnio
5- Coloca-se esse gs dentro de uma centrfuga especial que gira muito depressa, a 100 mil RPM (6,6 vezes mais que um motor de F-1). Com a rotao, os tomos de U-238, mais pesados, vo para os cantos da centrfuga. O U-235, mais leve, fica no meio  e pode ser extrado. O gs do centro  retirado e colocado em outra centrfuga. O processo  repetido milhares de vezes, at resultar num gs concentrado, com 90% de U-235. 
6- Misture esse gs com clcio. Isso far com que o urnio volte ao estado slido.
7- Corte o urnio em dois pedaos. Eles sero instalados dentro da bomba  e faro ela explodir [veja na prxima pgina].

A BOMBA
O modelo mais tradicional e mais simples  a bomba de fisso nuclear (como a usada em Hiroshima). Ela depende de trs mecanismos.
1- DETONAO INICIAL - A bomba tem um detonador inicial, que  feito de TNT (explosivo comum). Sua funo  muito simples: empurrar uma peca de urnio contra a outra [veja no item seguinte].
2- A UNIO DO URNIO - Para evitar que a bomba exploda antes da hora, as duas pecas de urnio ficam separadas. Mas quando o TNT  detonado, uma dessas peas  lanada contra a outra. Quando isso acontece, atinge-se a chamada massa crtica: h urnio suficiente para comear uma reao em cadeia.

PARA SABER MAIS
A Nuclear Family Vacation. Nathan Hodge e Sharon Weinberger, Bloomsbury USA, 2011.
O Bazar Atmico. William Langewiesche, Companhia das Letras, 2007.
Nuclear Wastelands: A Global Guide. Arjun Makhijani, The MIT Press, 2000.


6. RELIGIO  OS JESUTAS CONTRA-ATACAM
A Companhia de Jesus foi usada para conter a Reforma Protestante e propagar a f crist. Acabou se espalhando nos quatro cantos do mundo, foi perseguida e banida  mas resistiu. E s agora, quase cinco sculos depois, alcanou o cargo mais alto da Igreja.
REPORTAGEM / Rodrigo Cavalcante
EDIO / Karin Hueck

O Vaticano estava pressionado. Estadistas do mundo inteiro aguardavam com ansiedade a posio oficial da Igreja. Depois de quatro anos de hesitao, o papa finalmente tomou a deciso. No dia 21 de julho de 1773, em breves 45 pargrafos, Clemente 14 extinguiu da Igreja a Companhia de Jesus, a poderosa e temida ordem dos jesutas. A expulso foi fruto das presses de diversos governantes incomodados com o poder que os jesutas haviam acumulado em 200 anos de existncia, quando se tornaram uma das maiores organizaes religiosas do planeta. Os soldados de Cristo, como eram chamados, formaram a tropa de elite na defesa do Vaticano durante a Reforma Protestante, quando novas religies crists como o luteranismo e o anglicanismo foram fundadas. Alm disso, foram os jesutas que propagaram a f pelos rinces da terra, das montanhas do Tibete s florestas tropicais do Brasil. Seus mais de 700 centros de ensino educaram filsofos como Ren Descartes e, ao redor do ptio de seus colgios, nasceram grandes cidades, como So Paulo. Apesar de banida pelo papa, a Companhia de Jesus no apenas sobreviveu como, no ms passado, chegou ao mais alto cargo da Igreja com o jesuta argentino Jorge Bergoglio como papa Francisco. Com seu jeito simptico e fisionomia pacfica,  at difcil imaginar que a ordem da qual ele faz parte tenha sido moldada com disciplina militar por um soldado basco ferido por uma bala de canho. 

A FUNDAO 
Um militar basco, uma exploso. Em uma batalha contra tropas francesas na cidade de Pamplona, na Espanha, o soldado Iigo Lpez de Loyola (depois conhecido como Incio) viu sua perna direita ser estraalhada aps ser atingida por uma bala de canho em 1521. Nascido em 1491 no castelo de sua famlia na Provncia de Azpeitia, no Pas Basco, Loyola aspirava a uma vida de glria militar, dedicando-se a exerccios marciais, encontros amorosos e  leitura de livros de cavalaria  talvez o equivalente, hoje em dia, a um jovem f de filmes de ao e de UFC. Entediado durante a recuperao e sem acesso a livros de cavalaria, no lhe restou alternativa a no ser passar a vista sobre algumas obras de devoo, como a Legenda urea, best-seller da poca com relatos da vida dos santos. Em meio  leitura, Loyola percebeu que a vida dos santos e mrtires era repleta de ao. "Aparentemente, Loyola identificou alguma coisa de invejvel nas vidas heroicas dos santos, uma espcie de cavalaria espiritual, e seguiu o exemplo", conta o historiador ingls Jonathan Wright, autor de Os Jesutas. 
Decidido a empregar sua energia  causa de Cristo, o guerreiro basco de 26 anos largou tudo para se submeter a oraes e penitncias. Pragmtico, Loyola buscou a melhor formao universitria para enfrentar os debates teolgicos da poca, inflamados desde que o sacerdote Martinho Lutero decidira desafiar Roma fixando 17 teses na porta da igreja em Wittenberg (algo que pode parecer banal nestes tempos de protestos pblicos via Facebook, mas que na poca foi revolucionrio). Depois de estudar em Salamanca e Barcelona, Loyola decidiu ir at Paris, o mais fervilhante centro universitrio do mundo cristo. Jovem, cabeludo, com posies independentes e vida errante, foi vrias vezes perseguido por autoridades eclesisticas desconfiadas de sua linha espiritual. "Como muitos dos reformadores, ele era asceta e puritano e, durante algum tempo, viveu como eremita, deixando crescer o cabelo e unhas, e sem comer carne", diz o historiador ingls Paul Johnson, autor do livro Histria do Cristianismo. ''Contudo, virou pelo avesso o processo da Reforma ao acreditar no princpio da obedincia absoluta  Igreja". Ou seja: em vez de ingressar no grupo dos rebeldes que desafiavam o Vaticano, Loyola formou sua prpria milcia crist para a defesa e a propagao da f. Em agosto de 1534, ele e mais seis companheiros de orao se reuniram em um retiro para prestar votos de pobreza, celibato, imitar a vida de Cristo e converter infiis em Jerusalm e nas regies que estavam sob o domnio dos turcos otomanos. Assim nasceu a Companhia de Jesus.

CONQUISTA DO MUNDO
O grupo no perdeu tempo e partiu para Veneza, conexo obrigatria de quem queria partir para o Oriente. Naquele tempo, as coisas j estavam militarmente complicadas por l. Aps meses tentando embarcar sem sucesso  nenhum barco topou sair , mudaram de planos e decidiram ir a Roma para se colocar  disposio do papa para qualquer misso, por mais espinhosa que fosse. Apesar de alguns crculos no Vaticano no verem com bons olhos os inovadores mtodos espirituais do grupo, a Igreja Catlica no podia se dar o luxo de dispensar a energia de missionrios dispostos a qualquer sacrifcio pela f. Depois de conquistar o apoio de alguns cardeais, a proposta da nova ordem foi aprovada pelo papa Paulo 3 em 27 de dezembro de 1540. 
     Se a misso era propagar a f pelo mundo, nada melhor do que pegar carona nas naus portuguesas e espanholas em destino s terras recm-descobertas. Nove anos depois do reconhecimento da ordem, os jesutas chegaram ao Brasil na armada de Tom de Souza, e logo ergueram um colgio em Salvador, no momento em que a criao de centros de ensino foi incorporada como misso da ordem. "No era a ideia inicial da Companhia, ao menos de Incio de Loyola, investir no ensino", diz o historiador portugus Jorge Couto. "Mas a presso das elites catlicas italianas, espanholas e francesas o convenceu a se dedicar  educao". 
     Logo, o Vaticano percebeu que os jesutas poderiam ser teis na formao do clero e na criao de uma rede de ensino que no desviasse os jovens da f catlica. Assim, os centros de ensino jesutas ganharam reputao e se multiplicaram. Nos 50 anos que se seguiram  fundao da Companhia, foram erguidas cerca de seis instituies ao ano. A rpida expanso fez com que, em meados de 1600, a Companhia de Jesus controlasse a mais poderosa rede de ensino do mundo, tendo entre seus alunos futuros papas como Gregrio 15 e filsofos como Ren Descartes. Com aulas espalhadas pelas regies mais remotas do planeta, os jesutas se destacaram em astronomia, matemtica e cincias naturais. 
     Para a Companhia, a propagao da f pelo mundo no era figura de linguagem. Um dos seus votos implicava "ir a qualquer lugar que sua Santidade ordenasse, sem alegar nenhuma desculpa, sem requisitar nenhuma verba para a jornada, em nome da prosperidade da religio crist". Para isso, os missionrios passavam por um alistamento parecido com o dos militares de hoje em dia: deveriam se adaptar a qualquer ambiente do planeta, e eram vetados caso apresentassem alguma limitao fsica. Mas no faltavam jovens dispostos a pregar  e morrer  na frica, sia, Amrica ou na China. 
     O heri que inspirava esses jovens (e pode ter influenciado a escolha do nome do novo papa, alm de So Francisco de Assis) foi So Francisco Xavier, um dos cofundadores da Companhia que desbravou regies da frica, ndia e Japo. Morto em 1552 na ilha chinesa de Sanchoo (So Joo) e canonizado em 1622, a Igreja Catlica considera que So Francisco Xavier converteu mais pessoas ao Cristianismo do que qualquer outro missionrio, desde So Paulo  por isso, tornou-se o padroeiro dos missionrios. Na poca em que Xavier foi canonizado, a Companhia de Jesus j havia se consolidado como uma multinacional: o nmero de integrantes passou de mil, na poca da morte de Loyola (1556), para 15.544, em 1626. Sem dvidas, foi esse milagre numrico que multiplicou tambm o nmero de inimigos da ordem  dentro e fora da Igreja. 

A EXPULSO 
Fora dos domnios de Roma, os maiores inimigos dos jesutas eram os protestantes que haviam sofrido ataques incansveis da Companhia durante a chamada Contra-Reforma. Numa poca em que as guerras religiosas assolavam a Europa, os jesutas eram recrutados para misses secretas em pases protestantes, o que os tornava perseguidos como atualmente so os terroristas islmicos. Na Inglaterra, por exemplo, o jesuta Edmund Campion foi enforcado e esquartejado, acusado de traio por trabalhar clandestinamente no pas. 
     Para os protestantes, os mtodos de ao dos jesutas eram ameaadores por se diferenciarem da viso tradicional que tinham dos velhos monges catlicos, como sedentrios e preguiosos. Diferentemente das ordens que se dedicavam a uma vida contemplativa nos claustros, os jesutas pareciam fazer questo de se envolver no dia a dia da vida terrena, com todos os seus embates. "Em contraste com outras ordens localizadas nos arredores das cidades, os jesutas tentavam deliberadamente estabelecer suas igrejas perto das vias pblicas mais movimentadas", diz Jonathan Wright, em referncia a algo facilmente confirmado por qualquer um que conhece o centro histrico de Salvador ou de So Paulo. Quando se tornaram confessores dos poderosos reis da Europa no se furtavam de participar diretamente na ao poltica e diplomtica. O jesuta portugus Antonio Vieira, por exemplo, foi homem de confiana de Dom Joo 4, e acabou enviado aos Pases Baixos para negociar a devoluo do nordeste do Brasil. Mas a influente pregao de Vieira contra a escravizao dos indgenas logo o fez entrar em conflito com a Igreja e com os proprietrios de terra brasileiros. Com o passar do tempo, essa intimidade com o poder aliada a uma independncia de posies fizeram com que os jesutas fossem vistos como uma ameaa para as outras ordens catlicas. Dominicanos e franciscanos viam com preocupao a perda de espao para os jesutas como confessores dos nobres e poderosos. 
     Mas o embate mais desgastante se deu em torno das misses jesutas na Amrica do Sul. Elas eram aldeamentos indgenas que tentavam recriar uma sociedade crist europeia mais pura nos trpicos. Quando o modelo se expandiu, passou a enfrentar a oposio de setores da Igreja Catlica, que no concordavam com uma catequese que se adaptava a valores culturais dos ndios. Em meados do sculo 18, as misses haviam alcanado tamanha fama que os jesutas passaram a ser acusados de tentar criar um imprio independente, em uma campanha difamatria na Amrica e na Europa. Os lderes da Companhia se tornaram to poderosos que acabariam apelidados de "Papas Negros", em oposio ao oficial do Vaticano, que se veste de branco. 
     O primeiro choque de poder se deu em Portugal. Desde o terremoto de Lisboa, em 1755, que destruiu a cidade, o principal ministro do rei, o Marqus de Pombal, no estava nada feliz com as insinuaes de alguns jesutas de que o evento era uma punio pelos pecados do pas. Mas foi uma crise envolvendo as misses jesutas que serviriam de combustvel para a expulso da ordem. Ao trocar a cidade de Colnia de Sacramento com a Espanha por terras ao leste do rio Uruguai, sete misses guaranis passaram a fazer parte de Portugal. Quando alguns ndios guaranis se rebelaram contra a mudana, os jesutas foram acusados de apoi-los, e uma agressiva campanha foi montada contra a ordem. Membros da Companhia foram presos e torturados e, em abril de 1759, acabaram banidos de Portugal. Em seguida, foi a vez da Frana em 1764 e da Espanha em 1767. Restava saber quando a Companhia finalmente seria extinta. A oportunidade veio com a escolha do papa Clemente 14, em 1769. Aps hesitar por quatro anos, o pontfice finalmente cedeu  presso do embaixador espanhol Monio e lanou, em 21 de julho de 1773, a bula Dominus ac Redemptor, que, apesar de no conter nenhuma acusao especfica  Companhia, alegava que a remoo dela era necessria "pelo bem da paz crist". A ordem usada pelo Vaticano para destruir os hereges acabou destruda pela prpria Igreja Catlica.

 A VOLTA POR CIMA 
A supresso da ordem no representou um golpe apenas para os missionrios. Na prtica, foram desativados mais de 700 centros de ensino e 600 bibliotecas. Graas  proteo de alguns monarcas, contudo, a ordem nunca foi extinta completamente. Na Rssia, a imperatriz Catarina fez questo de fazer vista grossa e deixou os jesutas em paz no seu reino. Na Prssia, parte da atual Alemanha, eles tambm foram poupados. 
     Mas o Vaticano logo teve de reconhecer que havia feito da Companhia de Jesus um bode expiatrio. Em pouco tempo, ficou claro que os Estados europeus no estavam implicando especificamente com os jesutas  mas, sim, com uma interferncia direta de qualquer f sobre os seus assuntos. Em 1814, o papa Pio 7 restaurou a ordem sob a justificativa de que "O mundo catlico exige com unanimidade o restabelecimento da Companhia de Jesus". 
     A Companhia rapidamente se reestruturou, mas a vida para os jesutas e a Igreja no seria nada fcil nos sculos seguintes. Em um mundo impactado pela Teoria da Evoluo de Darwin e por ideologias que viam a religio como fonte de atraso e ignorncia, a Igreja Catlica precisava se reinventar. Mas, em vez de tentar se adaptar aos novos tempos, o Vaticano preferiu reagir reforando seus smbolos mais tradicionais. Mais uma vez, os jesutas estariam na vanguarda da defesa da f. 
     O primeiro movimento, no sculo 19, foi o resgate do smbolo do "Sagrado Corao de Jesus", uma imagem poderosa que lembrava ao mundo que os ataques impiedosos contra a f sangravam o corao de Cristo. Depois, veio o resgate da imagem de Maria, por meio do dogma da Imaculada Conceio, em 1854. E finalmente, quando o Conclio Vaticano 1 declarou, em 1870, a infalibilidade papal nos assuntos relativos  moral e  f, os jesutas tambm estavam presentes na condenao aos erros do "racionalismo, do materialismo e do atesmo". 
     Dali em diante, a Igreja sobreviveu no apenas s duas Guerras Mundiais no sculo 20, como testemunhou a expanso, ascenso e queda dos regimes comunistas  queda ajudada por um empurrozinho nada desprezvel do carismtico papa Joo Paulo 2. Aps a morte do Joo de Deus, que resgatou o poder da Igreja no Ocidente, houve quem apostasse que j era hora de um jesuta assumir o papado. Mas a eleio do cardeal alemo Joseph Ratzinger parecia confirmar a tese de que caberia aos jesutas manter-se sempre  margem da burocracia do clero para executar misses em nome do papa. 
     Se, em momentos de emergncia, o Vaticano sempre contou com os jesutas, a crise produzida pela renncia de Bento 16 talvez tenha criado as condies ideais para a chegada do primeiro jesuta ao papado. Enquanto Francisco levanta a bandeira da humildade j nos primeiros dias do seu pontificado, resta saber quais sero as armas que o primeiro soldado de Cristo na Santa S usar para defender sua f. Um bom histrico, sua ordem j tem. 

PARA SABER MAIS
Histria do Cristianismo. Paul Johnson, Imago, 2001.
Os Jesutas. Jonathan Wright, Ediouro, 2006.


